Última atualização em 9 de agosto de 2024 Jornalista RenatoGlobol

Woke, o que é isso?
Um posicionamento necessário sobre a cultura woke no mundo real
Escrevo este texto como jornalista que escolheu não fingir neutralidade diante de conflitos morais evidentes. A palavra-chave deste artigo é cultura woke, e ela precisa aparecer já neste primeiro bloco porque o debate não é apenas semântico. É político, histórico e profundamente humano. A cultura woke tornou-se um dos termos mais disputados do século XXI, usado tanto para nomear uma consciência ética diante das injustiças quanto para desqualificar movimentos sociais que ameaçam privilégios antigos. Não existe inocência nessa disputa. Existe poder.
Não escrevo para agradar conservadores nem para oferecer conforto automático a progressistas. Escrevo porque a confusão deliberada sobre a cultura woke virou ferramenta de guerra cultural em países como Estados Unidos, Brasil, Hungria de Viktor Orbán e a Itália de Giorgia Meloni. Quando um conceito ligado à dignidade humana passa a ser tratado como insulto, algo está profundamente errado na conversa pública.
A origem negra que o debate tenta apagar
A cultura woke não nasceu em universidades de elite nem em departamentos de marketing corporativo. Nasceu na experiência concreta da população negra norte-americana, especialmente no sul dos Estados Unidos, onde “stay woke” significava manter-se alerta contra violência racial, linchamentos, segregação e brutalidade policial. Era linguagem de sobrevivência, não de teoria.
Ignorar essa origem é uma forma de apagamento histórico semelhante ao que ocorreu com o jazz, o blues e o rock, apropriados por indústrias culturais que raramente reconheceram plenamente suas raízes afro-americanas. Quando comentaristas de televisão no Brasil usam “woke” como sinônimo de exagero moral, frequentemente demonstram desconhecer — ou escolher ignorar — que o termo carrega séculos de dor e resistência.
A história importa porque define o sentido das palavras. E distorcer palavras sempre foi uma estratégia política eficiente.
A década de 2010 e a expansão inevitável da pauta
Durante os anos 2010, a cultura woke deixou de ser um alerta racial específico e passou a dialogar com outras formas de desigualdade estrutural. Feminismos contemporâneos, movimentos LGBTQIA+, debates sobre imigração na Europa, violência policial nas periferias brasileiras e a crise climática entraram no mesmo campo simbólico: o da consciência social ativa.
Esse processo não foi artificial. Foi consequência direta da globalização digital. Redes como Twitter, Facebook e YouTube permitiram que experiências locais de opressão se tornassem narrativas globais. Um assassinato em Minneapolis ecoou em São Paulo, Paris e Joanesburgo. A cultura woke tornou-se linguagem comum de indignação transnacional.
Governos perceberam rapidamente o potencial político disso. Donald Trump nos Estados Unidos e Jair Bolsonaro no Brasil transformaram a palavra “woke” em inimigo retórico central. Não por acaso. Movimentos que ampliam direitos costumam ameaçar projetos autoritários.
2020: quando o mundo foi obrigado a olhar
O assassinato de George Floyd por um policial em Minneapolis não criou a cultura woke, mas obrigou o planeta a encará-la. Protestos massivos ocorreram em dezenas de países. Empresas multinacionais emitiram comunicados antirracistas. Estátuas coloniais foram derrubadas na Inglaterra. No Brasil, casos como o de João Pedro, morto no Rio de Janeiro, reacenderam discussões sobre racismo estrutural.
Foi um momento raro em que dor, política e consciência coletiva se encontraram. Também foi o momento em que começou a contraofensiva organizada. Think tanks conservadores, canais de televisão e líderes populistas passaram a tratar a cultura woke como ameaça civilizatória. A disputa deixou de ser moral e virou estratégica.
Quando um termo mobiliza milhões, ele inevitavelmente vira campo de batalha.
O uso político do medo
Hoje, a cultura woke é frequentemente apresentada como censura, patrulha moral ou destruição de valores tradicionais. Essa narrativa não surge do nada. Ela é produzida por estruturas de poder que incluem conglomerados de mídia, bilionários do setor tecnológico e partidos que dependem de conflitos culturais para sobreviver eleitoralmente.
Nos Estados Unidos, governadores como Ron DeSantis aprovaram leis restringindo debates sobre racismo em escolas. No Brasil, projetos semelhantes tentaram proibir discussões de gênero em salas de aula. Na prática, o que se chama de combate ao “woke” muitas vezes é apenas resistência à ampliação de direitos civis.
Isso não significa que toda crítica à cultura woke seja ilegítima. Significa apenas que grande parte delas é instrumentalizada politicamente. Há diferença entre debate honesto e propaganda.
Onde a cultura woke acerta — e por que isso incomoda
A cultura woke acerta quando afirma algo simples: desigualdades históricas não desaparecem sozinhas. Racismo, machismo e homofobia não são opiniões individuais isoladas, mas estruturas sociais reproduzidas por séculos. Reconhecer isso é desconfortável para quem sempre ocupou posições de vantagem.
Por isso a reação costuma ser emocionalmente intensa. Não se trata apenas de discordância intelectual. Trata-se de perda simbólica de poder.
Ao colocar dignidade humana no centro do debate, a cultura woke força sociedades inteiras a rever narrativas nacionais. Nos Estados Unidos, isso significa encarar a escravidão. No Brasil, significa reconhecer que a abolição de 1888 não trouxe igualdade real. Na Europa, implica revisitar o colonialismo.
História mal resolvida sempre cobra preço.
Onde a cultura woke erra — e por que precisamos dizer isso
Tomar partido não significa abandonar a crítica. Há momentos em que setores associados à cultura woke adotam posturas moralistas, simplificadoras ou punitivas demais. A chamada cultura do cancelamento, quando transforma erro em sentença perpétua, pode destruir diálogo e impedir aprendizado.
Movimentos sociais fortes precisam de autocrítica para não reproduzir aquilo que combatem. Justiça não pode virar vingança simbólica. Transformação social exige escuta, não apenas denúncia.
Dizer isso não enfraquece a cultura woke. Pelo contrário. A torna mais madura.
Juventude, redes sociais e esperança concreta
Entre jovens do Brasil, dos Estados Unidos e de diversos países africanos, a cultura woke funciona menos como ideologia e mais como linguagem moral básica. Respeitar diferenças, denunciar violência policial, defender igualdade de gênero e cobrar responsabilidade ambiental não são vistos como radicalismo, mas como mínimo civilizatório.
Essa mudança geracional é profunda. Pesquisas internacionais mostram jovens mais progressistas em temas sociais e mais críticos ao capitalismo desregulado. Isso explica por que disputas culturais se tornaram tão intensas: elas são, no fundo, disputas sobre o futuro.
Cada geração redefine o que considera aceitável. A atual parece menos disposta a tolerar injustiças naturalizadas.
Brasil: entre consciência social e guerra cultural importada
No Brasil, a discussão sobre cultura woke chegou misturada a conflitos políticos recentes. Parte da direita adotou o termo como rótulo para qualquer pauta progressista, enquanto parte da esquerda o incorporou sem refletir sobre adaptações necessárias à realidade brasileira.
Mas o país tem história própria. Racismo estrutural aqui se conecta à escravidão mais longa das Américas. Violência policial atinge principalmente jovens negros das periferias. Desigualdade social permanece entre as maiores do mundo. Ignorar esses fatos em nome de combater o “woke” é negar a realidade.
A pergunta relevante não é se o Brasil deve ser woke. É se o Brasil aceita continuar injusto.
O que está realmente em jogo
No fundo, o debate sobre cultura woke não é sobre palavras. É sobre quem merece dignidade plena. É sobre quais vidas importam quando políticas públicas são definidas. É sobre memória histórica, distribuição de poder e possibilidades de futuro.
Quando governos atacam universidades, restringem livros ou silenciam professores, raramente estão defendendo liberdade. Estão defendendo controle narrativo. E controle narrativo sempre antecede retrocessos democráticos.
A história do século XX ensina isso com clareza suficiente para que não precisemos repetir erros.
Por que este texto toma partido
Assumo aqui um posicionamento claro: defendo a cultura woke enquanto consciência social ativa contra injustiças estruturais. Rejeito seu uso caricatural como arma de polarização. E reconheço seus excessos quando substitui diálogo por punição simbólica.
Esse não é um equilíbrio confortável. Mas jornalismo de opinião não existe para conforto. Existe para responsabilidade pública.
Fingir neutralidade diante de desigualdade histórica seria, isso sim, uma escolha política — e das mais covardes.
Conclusão: consciência não é modismo
A cultura woke não desaparecerá porque não é tendência estética. É parte de um processo histórico maior de expansão de direitos humanos iniciado muito antes das redes sociais. Mulheres votando, fim do apartheid, casamento igualitário, direitos civis. Cada avanço já foi chamado de exagero em seu tempo.
Hoje, a palavra da vez é woke. Amanhã será outra. Mas a direção da história costuma favorecer quem luta por dignidade.
Podemos debater métodos, excessos e limites. Devemos, inclusive. O que não podemos é tratar consciência social como inimiga. Sociedades que fazem isso costumam se arrepender tarde demais.
Escrevo porque acredito que ainda há tempo de escolher melhor. E escolher melhor, neste momento histórico, significa não ter medo de estar desperto.


