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Julian Assange: O Guardião dos Segredos do Mundo está Livre

Última atualização em 10 de fevereiro de 2026 Jornalista RenatoGlobol

Julian Assange livre: o guardião incômodo dos segredos do mundo

julian assangeO Guardião dos Segredos do Mundo está livre

Falar de Julian Assange livre não é apenas comentar a situação pessoal de um homem que atravessou tribunais, celas e embaixadas durante mais de uma década. É discutir o próprio estado da democracia contemporânea, o alcance do poder imperial dos Estados Unidos, a fragilidade das instituições jurídicas internacionais e o papel do jornalismo diante de crimes cometidos por governos que se dizem civilizados. Este texto assume posição clara: a libertação de Assange não é apenas justa, é necessária para que a liberdade de informação continue existindo como valor político real e não como retórica vazia usada por potências ocidentais quando lhes convém.

Não escrevo como observador neutro. Escrevo como jornalista que entende que informação é instrumento de proteção social, sobretudo para os mais vulneráveis, aqueles que morrem em guerras decididas em gabinetes distantes, aqueles que nunca aparecem nas manchetes quando drones erram alvos, aqueles cuja existência só ganha visibilidade quando alguém rompe o silêncio imposto pelo segredo de Estado. Assange rompeu esse silêncio. E por isso foi perseguido.


O preço de revelar o que o poder esconde

Julian Assange nasceu na Austrália, longe dos centros tradicionais de poder global. Tornou-se programador, hacker ético, ativista digital e, finalmente, fundador do WikiLeaks em 2006. A proposta era simples e revolucionária: criar um mecanismo seguro para que denunciantes enviassem documentos sigilosos comprovando abusos de governos e corporações. Transparência radical como método de controle democrático.

O mundo mudou em 2010. O vídeo conhecido como Collateral Murder, mostrando um helicóptero Apache dos Estados Unidos matando civis e jornalistas em Bagdá, rompeu a narrativa higienizada da guerra do Iraque. Depois vieram os diários de guerra do Afeganistão, os relatórios militares do Iraque e milhares de telegramas diplomáticos que expuseram espionagem, pressões políticas e hipocrisias internacionais.

Nada disso era ficção. Eram documentos oficiais.

A reação não foi investigar os crimes revelados. A reação foi destruir quem os revelou. Esse é o ponto central que precisa ser dito sem rodeios: quando a verdade ameaça o poder, o poder tenta eliminar a verdade — ou quem a publica.


Perseguição jurídica como método político

Os Estados Unidos mobilizaram uma engrenagem judicial e diplomática raramente vista contra um jornalista. Acusações sob a Lei de Espionagem de 1917, pressões sobre aliados, campanhas de difamação pública, vigilância dentro da embaixada do Equador em Londres e anos de confinamento que especialistas da ONU classificaram como detenção arbitrária.

Não se tratava apenas de punir Assange. Tratava-se de criar precedente. Se publicar documentos verdadeiros pudesse ser equiparado a espionagem, qualquer jornalista investigativo do planeta estaria ameaçado. O caso não era individual; era estrutural.

O Reino Unido colaborou ativamente com esse processo, mostrando como a chamada “ordem liberal internacional” funciona na prática: direitos são defendidos enquanto não confrontam interesses estratégicos de Washington. Quando confrontam, tornam-se negociáveis.


O acordo que encerra uma era — mas não resolve o problema

O fato de termos hoje Julian Assange livre resulta de um acordo judicial. Não foi absolvição plena. Foi uma saída política para um impasse diplomático que se tornara constrangedor para governos ocidentais que discursam sobre liberdade de imprensa enquanto mantêm jornalistas presos.

A libertação encerra um ciclo pessoal de sofrimento extremo, mas não encerra a lógica que permitiu essa perseguição. A mesma arquitetura legal continua disponível para ser usada contra futuros denunciantes. A mensagem enviada ao mundo é ambígua: revelar crimes pode custar a vida inteira.

Ainda assim, a liberdade concreta de um ser humano importa. E importa muito.


Lula, geopolítica e a disputa narrativa global

Luiz Inácio Lula da Silva posicionou-se repetidamente pela libertação de Assange. Isso não é detalhe diplomático menor. É parte de uma disputa simbólica maior entre diferentes visões de mundo.

Quando um presidente do Sul Global denuncia a prisão de um jornalista perseguido por potências do Norte, ele expõe a assimetria moral do sistema internacional. A fala de Lula incomodou porque revelou o óbvio: não há democracia real onde revelar crimes de guerra é tratado como crime maior do que cometê-los.

Esse posicionamento também conecta o caso Assange à luta histórica latino-americana contra autoritarismos, censuras e intervenções estrangeiras. A defesa da liberdade de informação não pode ser seletiva. Ou vale para todos, ou não vale para ninguém.


Jornalismo, espionagem e a fronteira deliberadamente confusa

Governos tentaram redefinir o que é jornalismo para enquadrar Assange como espião. Essa estratégia é perigosa porque dissolve a proteção histórica concedida à imprensa.

Receber documentos sigilosos de fontes sempre fez parte do jornalismo investigativo. Do Pentagon Papers publicados pelo New York Times nos anos 1970 às denúncias de Edward Snowden reveladas pelo The Guardian, o princípio é o mesmo: interesse público acima do segredo estatal.

Se Assange é criminoso por publicar documentos verdadeiros, então grande parte da história do jornalismo moderno também seria criminosa. Essa conclusão é absurda — e justamente por isso precisa ser rejeitada com clareza.


A internet deixou de ser território livre

julian assange

O caso Assange revela transformação profunda da internet. Aquela rede aberta dos anos 1990 foi substituída por um ecossistema dominado por vigilância massiva, plataformas corporativas e controle algorítmico.

Estados monitoram. Empresas coletam dados. Dissidentes são rastreados. A promessa libertária original foi parcialmente capturada por interesses econômicos e militares.

Assange pertence à geração que acreditou que tecnologia poderia descentralizar o poder. Sua perseguição mostra como o poder respondeu: centralizando ainda mais.


Democracia sob segredo permanente

Não existe democracia sem acesso à verdade. Eleitores não podem tomar decisões informadas se crimes de Estado permanecem ocultos por décadas sob o rótulo de “segurança nacional”.

Esse conceito, aliás, tornou-se frequentemente escudo para abusos. Guerras ilegais, tortura, espionagem de aliados, manipulação política — tudo pode ser escondido se a palavra mágica for pronunciada.

Assange expôs esse mecanismo. Por isso foi tratado como ameaça sistêmica.


O desconforto moral do Ocidente

Países que se apresentam como guardiões dos direitos humanos participaram direta ou indiretamente do sofrimento prolongado de um jornalista que não matou ninguém, não desviou recursos públicos e não comandou exércitos. Apenas publicou documentos verdadeiros.

Esse contraste revela fissura moral profunda. O problema não é apenas jurídico. É civilizatório.

Quando denunciar crimes se torna mais perigoso do que cometê-los, algo essencial já foi perdido.


Liberdade individual e memória coletiva

Ter Julian Assange livre significa devolver a um homem o direito básico de viver fora de grades. Mas significa também preservar uma memória histórica: a de que alguém ousou desafiar a opacidade do poder global.

Memórias importam porque moldam o futuro. Se esquecermos o que aconteceu com Assange, abriremos caminho para que aconteça novamente com outros.

A defesa dele não é culto à personalidade. É defesa de um princípio.


O que ainda está em jogo

Mesmo livre, Assange carrega marcas físicas e psicológicas de anos de confinamento. O custo humano foi enorme. E isso também faz parte da mensagem disciplinadora enviada a possíveis denunciantes.

A pergunta central permanece: o mundo quer mais transparência ou mais silêncio? Quer cidadãos informados ou populações gerenciadas?

A resposta definirá o futuro da democracia digital.


Um posicionamento necessário

Este texto assume posição inequívoca. Apoio Julian Assange. Rejeito a perseguição política travestida de processo legal. Defendo a liberdade de informação como pilar inegociável de qualquer sociedade que se pretenda democrática.

Não ignoro complexidades éticas. Vazamentos podem gerar riscos reais. Mas a solução nunca será criminalizar quem revela verdades de interesse público. A solução é fortalecer instituições, proteger denunciantes e limitar o poder secreto dos Estados.

Ficar em silêncio diante do que aconteceu com Assange seria cumplicidade.


Depois da liberdade, o futuro

A libertação de Assange não encerra a história. Talvez seja apenas o início de nova fase do debate global sobre transparência, tecnologia e poder.

O mundo que emerge é mais multipolar, mais conectado e também mais vigiado. Nesse cenário, jornalistas, programadores, ativistas e cidadãos comuns precisarão decidir de que lado estão: do segredo que protege poderosos ou da informação que protege sociedades.

Assange fez sua escolha. Pagou caro por ela. Hoje está livre.

Que sua liberdade não seja apenas um alívio individual, mas um sinal coletivo de que ainda é possível resistir.

Porque sem verdade não há democracia.
Sem democracia não há dignidade.
E sem dignidade nenhuma civilização merece esse nome.

🌐 Fontes

  1. O Globo – Como Julian Assange virou pesadelo para os EUA e…
  2. Exame – Quem é Julian Assange, fundador do Wikileaks que vai se…
  3. CartaCapital – Após acordo, Julian Assange está livre e já deixou o Reino…
  4. InfoMoney – Fundador do Wikileaks deve se declarar culpado e…
  5. G1 – Fundador do WikiLeaks, Assange faz acordo com EUA e…
  6. Euronews – Julian Assange libertado e a caminho de casa depois…

 

Por: Renato Mendes de Andrade – Jornalista – MTB 72.493/SP

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