Última atualização em 28 de janeiro de 2026 Jornalista RenatoGlobol
Introdução: quando o futuro deixa de ser promessa e vira obra

O Brasil já viveu momentos em que o futuro parecia palpável. Não era apenas discurso, não era apenas esperança abstrata. O futuro estava ali, visível, concreto, levantando poeira no Planalto Central, tomando forma em concreto, aço e sonho. A construção de Brasília não foi só uma obra urbana; foi um gesto civilizatório. Um país que decidiu, coletivamente, sair do litoral, integrar seu território e afirmar: “nós existimos como nação”.
Hoje, décadas depois, vivemos um paradoxo. Temos território, sol, água, minérios, alimentos, gente criativa, universidades, tecnologia e memória histórica. Ainda assim, o sentimento dominante não é o de marcha coletiva, mas de dispersão. Cada um por si, cada setor defendendo seu quinhão, enquanto o país parece girar em círculos.
É nesse ponto que olhar para a China deixa de ser exotismo ideológico e passa a ser um exercício de aprendizado histórico. Não para copiar modelos, nem para importar autoritarismos, mas para compreender como um projeto nacional organizado consegue transformar recursos em futuro compartilhado.
O erro central: acreditar que riqueza individual gera desenvolvimento coletivo
Durante muito tempo fomos levados a acreditar que, se indivíduos enriquecerem o suficiente, a sociedade prospera automaticamente. A história real mostra algo diferente. Riqueza concentrada, sem coordenação nacional, tende a gerar ilhas de abundância cercadas por oceanos de carência.
A China percebeu isso cedo. Lá, a pergunta central nunca foi “como criar bilionários”, mas “como impedir que grandes fortunas se tornem poderes paralelos”. Não se trata de demonizar quem enriquece, mas de entender que riqueza, quando desacoplada de um projeto coletivo, passa a trabalhar contra a própria sociedade que a gerou.
No Brasil, conhecemos bem o outro lado da moeda. Elites que prosperam mesmo quando o país empobrece. Fortunas que crescem com a desindustrialização. Ganhos privados obtidos a partir da fragilização do Estado, da educação e da ciência. Esse não é um acidente histórico; é um modelo.
A lição chinesa: riqueza pode existir, mas não pode mandar
Na China contemporânea, bilionários existem, e muitos. O que não existe é a possibilidade de que eles se coloquem acima do Estado ou do projeto nacional. Esse é um ponto fundamental para entender por que o Politburo observa grandes fortunas com atenção constante.
Quando empresários chineses passaram a controlar sistemas de pagamento, crédito, dados populacionais e infraestrutura digital em escala nacional, o Partido Comunista Chinês agiu. Não com improviso, nem com discursos emocionais, mas com regulação direta. Empresas foram reestruturadas, IPOs suspensos, ativos enquadrados como estratégicos.
A mensagem foi simples e objetiva: enriquecer é permitido, dominar não.
Essa postura não nasce de paranoia, mas de memória histórica. A China conhece bem o colapso causado por elites desconectadas do interesse nacional. Dinastias ruíram quando a riqueza deixou de circular e passou a se concentrar em castas fechadas. O Partido governa com esse fantasma sempre presente.
Prosperidade comum: disciplina econômica, não slogan
Quando Pequim fala em prosperidade comum, não está falando em nivelar todos por baixo, nem em eliminar o mérito individual. Está falando em impedir que a desigualdade destrua a coesão social, a estabilidade política e a capacidade de planejamento de longo prazo.
Bilionários chineses foram pressionados a reinvestir em educação, ciência, inovação e desenvolvimento regional. Ostentação pública foi desencorajada. A lógica do rentismo financeiro passou a ser vista como comportamento antinacional. Não por moralismo, mas porque ela drena energia produtiva.
Essa disciplina econômica cria algo raro no mundo contemporâneo: previsibilidade social. O cidadão comum, ao ver obras, empregos e infraestrutura surgirem, passa a acreditar que o futuro não é uma abstração distante. Ele está sendo construído agora.
Brasília: quando o Brasil acreditou em si mesmo

A construção de Brasília foi, guardadas as proporções históricas, um momento chinês do Brasil. Um projeto que exigiu planejamento central, mobilização de recursos, sacrifícios individuais e visão de longo prazo. Houve erros, excessos, dores humanas. Mas houve, sobretudo, um país que decidiu agir como país.
Brasília gerou coesão simbólica. Criou identidade. Produziu orgulho. Não porque todos participaram do desenho, mas porque todos puderam ver o resultado. A obra falava por si.
O que faltou depois foi continuidade. O Brasil construiu a capital, mas abandonou a ideia de projeto permanente. Cada governo passou a desfazer o anterior. Cada elite passou a extrair mais do que investir. O resultado foi a perda daquele sentimento coletivo de marcha.
O papel das elites: liderar ou extrair

Toda sociedade possui elites. Isso é um fato histórico, não uma opinião. A questão não é se elas existem, mas o que fazem com o poder que concentram.
Na China, a elite política está condicionada a entregar resultados concretos. Crescimento, infraestrutura, redução da pobreza, estabilidade. Seu prestígio depende disso. Quando falha, cai.
No Brasil, grande parte das elites econômicas prospera independentemente do sucesso nacional. Em alguns casos, prospera justamente porque o país fracassa. Esse desalinhamento é devastador. Ele destrói a confiança social e bloqueia qualquer tentativa de disciplina coletiva voltada ao desenvolvimento.
Um povo educado, coeso e consciente não é ameaça ao país. É ameaça a privilégios injustificados. Essa é uma verdade incômoda, mas necessária.
Ciência, planejamento e o fim do improviso
A China não governa por achismo. Governa por dados, testes, projetos-piloto e avaliação constante. Políticas públicas são tratadas como hipóteses a serem verificadas. Se funcionam, são ampliadas. Se falham, são corrigidas ou descartadas.
Isso exige algo que o Brasil raramente aceita: paciência histórica. Resultados estruturais não surgem em quatro anos. Exigem décadas de consistência, investimento contínuo e proteção institucional.
Brasília levou anos para se justificar economicamente. Hoje, ninguém discute sua centralidade política. O mesmo vale para ferrovias, universidades públicas e sistemas de saúde. O benefício coletivo quase nunca é imediato.
Dinheiro não constrói países, organização constrói
O debate sobre dinheiro costuma ser superficial. Moeda não é riqueza; é instrumento. Sem organização produtiva, dinheiro vira inflação, especulação ou fuga de capitais.
A China entendeu isso ao usar bancos estatais como instrumentos de planejamento, não como cassinos financeiros. Crédito foi direcionado. Juros foram controlados. O capital serviu ao projeto, não o contrário.
O Brasil, ao abdicar dessa capacidade, passou a viver sob chantagem permanente dos fluxos financeiros. Investir virou risco, especular virou regra. O futuro foi sendo trocado por ganhos imediatos.
Um convite ao Brasil real
Este texto não é um elogio cego à China, nem um ataque automático ao Brasil. É um convite à maturidade histórica. Nenhuma nação se desenvolve sem coordenação, disciplina e propósito coletivo.
O Brasil já provou que é capaz. Brasília está aí como prova física. Falta recuperar a coragem de pensar grande, de planejar junto, de aceitar que certos projetos não são individuais, mas nacionais.
Não se trata de silenciar o povo, mas de oferecer algo em troca da esperança: obras, ciência, empregos, infraestrutura, horizonte. A participação mais profunda nasce quando as pessoas veem sentido no caminho.

Conclusão: o futuro não é ideologia, é decisão
O futuro não é de esquerda nem de direita. É organizado ou caótico. Construído ou improvisado. Compartilhado ou apropriado.
A China decidiu, com seus erros e acertos, que o projeto nacional vem antes da vaidade individual. O Brasil precisa decidir se quer continuar exportando sonhos ou começar a construí-los em casa.
Brasília não foi perfeita. Mas foi um ato de fé no país. Está na hora de um novo gesto civilizatório, à altura do nosso tempo, da nossa gente e da nossa história.
Renato Globol

