Última atualização em 19 de fevereiro de 2026 Jornalista RenatoGlobol
A gentrificação em Barão Geraldo é um fenômeno que transforma a realidade local, trazendo problemas, desafios e pouquíssimas oportunidades para a comunidade.

O fenômeno da gentrificação em Barão Geraldo está mudando a paisagem urbana e social da região.
O riso corre fácil onde a grana rola solta. Eu ouço ele todo dia, saindo das janelas dos prédios novos, daqueles que brotaram como cogumelos depois da chuva de isenções fiscais. Rio de quem acabou de fechar o décimo contrato de aluguel do mês, de quem transformou o antigo quintal da avó em três kitnets empilhadas, de quem registra uma “empresa de consultoria em inovação” só pra poder se chamar de empresário no Instagram enquanto o dinheiro de verdade vem do estudante que paga R$ 1.800 por um quarto de 8 m² sem janela.
Eu moro e trabalho aqui, na Rua Marcolina Mendes Leme, Vila Santa Isabel, coração do distrito que a Unicamp fez e a especulação tomou. Conheço o cheiro do asfalto quente misturado com o suor de quem carrega colchão de solteiro escada acima todo início de semestre. Conheço também o silêncio que fica quando o estudante vai embora e o proprietário sobe o aluguel mais 25% “porque agora tem demanda”.
Isso não começou com o PIDS. Nem com o HIDS. Nem com o Plano Diretor que a Câmara aprovou em outubro de 2025 permitindo prédios de trinta andares onde antes cabia casa de um pavimento. A gentrificação em Barão Geraldo é apenas a versão 2026 de um script antigo: tomar a terra, explorar o corpo que trabalha nela, dar nome bonito de “progresso” e seguir em frente.
O Barão Geraldo de Rezende, que batiza o distrito, não era um visionário romântico. Era dono de gente. Campinas foi uma das últimas cidades do Império a respirar alforria de verdade. Em 1888 ainda havia senhores que escondiam escravizados nas roças de café enquanto assinavam manifestos abolicionistas. O riso deles também corria fácil onde a grana do café rolava solta. Hoje os descendentes — ou os que herdaram o mesmo DNA econômico — não precisam mais de chicote. Basta o contrato de locação, o WhatsApp cobrando fiador e a ameaça velada de despejo.
Eu sei o que vocês fizeram no verão passado.
Não foi só o PIDS que passou como trator na Câmara. Foi o caso do porteiro Rodnei Ferraz, no Colégio Objetivo Barão Geraldo, chamado de “negro sujo”, “macaco” e “sub-raça” por alunos de elite em dezembro de 2025. Ele denunciou. Foi demitido. O riso continuou fácil na diretoria. A cidade inteira fingiu surpresa por dois dias, depois voltou a falar de “inovação” e “hub tecnológico”. O corpo negro que limpa o chão da escola que forma os filhos dos proprietários de imóveis é o mesmo corpo que, daqui a dez anos, não vai mais conseguir pagar o aluguel no bairro que ajudou a construir.
É essa a conexão que ninguém quer fazer em voz alta: a exploração imobiliária de hoje é a continuação direta da negação de direitos de ontem. O estudante que chega de interior pagando R$ 2.300 de república é o novo trabalhador precarizado. O proprietário que tem 18 imóveis no nome de “pessoas jurídicas” diferentes é o novo senhor de engenho — só que agora com CNPJ e conta em banco offshore.
E o golpe de mestre é a fachada empresarial.
Conheço pelo menos três casos concretos — e poderia citar nomes se não fosse risco de processo. Homem branco, 50 e poucos anos, dono de 27 kitnets e studios entre Barão Geraldo e Cidade Universitária. Registra uma “empresa de eventos” que nunca promoveu um evento. Abre um “bar de cerveja artesanal” que funciona três tardes por semana, só pra ter foto no Instagram com legenda “empresário local”. O faturamento real? 92% vem dos aluguéis. Os 8% restantes são da cerveja gelada que ele mesmo compra no Atacadão e revende com 300% de lucro pros próprios inquilinos.
Outro caso: mulher que herdou terrenos do pai fazendeiro. Transformou três casas em “co-working spaces” que nunca tiveram um único coworking de verdade. As placas estão lá. O CNPJ ativo. O discurso no LinkedIn: “empreendedora que acredita no potencial de Barão Geraldo”. O que ela acredita mesmo é que o estudante de Engenharia da Computação vai pagar em dia e nunca reclamar do mofo no banheiro.
É empreendedorismo de mentira. É gentrificação com cara de startup.
Enquanto isso, a gente que nasceu aqui — filhos e netos de trabalhadores da Unicamp, de funcionários da fábrica que fechou, de quem plantou mandioca onde hoje tem condomínio fechado — vai sendo empurrado pro Jardim Florence, pro DIC, pro Ouro Verde. A distância pro trabalho aumenta. O tempo no ônibus aumenta. O estresse no corpo aumenta. A capacidade de sonhar diminui. Neurocientistas já mediram: deslocamento forçado crônico eleva cortisol, reduz volume do hipocampo, compromete a memória de longo prazo. Em Barão Geraldo a gente não precisa de ressonância. Basta olhar no olho da tia que mora há 40 anos na rua do lado e que agora chora porque o dono avisou que vai vender pra construtora.
O PIDS, vendido como “o futuro sustentável da cidade”, é o instrumento perfeito dessa operação. Prédios de 30 andares com “moradia popular” que ninguém acredita que vai ser popular. Isenção de IPTU por dez anos pros incorporadores. Flexibilização de gabarito pra quem tem dinheiro pra pagar a taxa de outorga. E a Unicamp, que poderia estar do nosso lado, vira refém: precisa de moradia pros próprios alunos, mas o preço da terra subiu tanto que até ela tem dificuldade de comprar terreno.
Eu não sou contra progresso. Sou contra progresso que só progride pra um lado.
Quero um Barão Geraldo onde o estudante more com dignidade sem precisar pagar o salário inteiro de bolsa. Quero que o proprietário de dez imóveis pague imposto progressivo de verdade, não aquela farsa de IPTU que cobra menos de quem tem mais. Quero que “empresário” seja quem gera emprego de fato, não quem usa o imóvel como máquina de imprimir dinheiro enquanto finge que tem startup.
Porque o futuro que a gente sonha — solarpunk, afrofuturista, jazzístico — não nasce de fachadas. Nasce de gente que fica. De gente que resiste. De gente que, mesmo com o corpo cansado e o aluguel subindo, ainda consegue improvisar um solo de sobrevivência como um contrabaixo em plena madrugada.
O riso deles pode correr fácil hoje. Mas eu sei o que fizeram no verão passado. E eu, Renato Mendes de Andrade, Renatoglobol, vou continuar escrevendo até que o riso engasgue na garganta de quem acha que pode transformar nosso território em mais um shopping center disfarçado de hub de inovação.
Porque morar em Barão Geraldo não é só pagar aluguel. É carregar a memória de quem veio antes. É sentir no peito o peso de quem ainda resiste. E é, sobretudo, recusar que o futuro seja escrito apenas com o dinheiro dos de sempre.
O resto é história. E história, a gente sabe, não perdoa quem ri alto demais enquanto rouba o chão debaixo dos pés do povo.

