Última atualização em 9 de março de 2026 Jornalista RenatoGlobol

Trump e a Banalização da Morte: “Coisas Acontecem” na Guerra Irã-EUA
Há momentos na história em que uma única frase revela mais do que mil relatórios de inteligência. Na última semana, enquanto caixões cobertos pela bandeira estadunidense desembarcavam em solo americano, Donald Trump, o homem que ordenou a invasão do território soberano iraniano, foi questionado sobre a morte de militares sob seu comando. Sua resposta ecoou através da sala de imprensa com a leveza de quem comenta o tempo: “Coisas acontecem”.
Não estamos diante de um lapsus linguístico. Estamos diante de uma filosofia de governo. “Coisas acontecem” — como se jovens de vinte e poucos anos, filhos de pais que os esperavam para o jantar de domingo, tivessem sido vítimas de um acidente de trânsito, não de uma decisão política calculada que deu início à guerra Irã-Estados Unidos. Como se o ato de enviar homens e mulheres para morrer em território estrangeiro, longe de suas casas, não demandasse uma justificativa maior do que a resignação fatalista de quem aceita a chuva num dia de piquenique.
A cena se desenrolou com aquela estranheza particular que marca o segundo mandato trumpista. O presidente, ao lado de Pete Hegseth — nome que soa mais a personagem de série de espionagem do que a secretário de Defesa —, concedia entrevista após cerimônia de homenagem aos mortos. Perguntado se as mortes o faziam reconsiderar a guerra no Irã, Trump desviou para estatísticas de destruição: 44 navios destruídos, força aérea aniquilada, mísseis neutralizados. Números frios que deveriam compensar, em sua lógica, o sangue quente derramado.
Mas a pergunta persistente, aquela que não se deixa abafar pela retórica militar, é simples: para quê? Qual o objetivo estratégico que justifica transformar jovens americanos em estatísticas de “baixas aceitáveis”? A resposta, quando finalmente emerge dos labirintos da administração, é tão antiga quanto imperiais: petróleo. Não segurança nacional. Não democracia. Não — a piada cruel — “proteger civis”. Petróleo do Irã.
Um membro do próprio regime, em momento de rara honestidade, confessou o que todos suspeitavam: “O que queremos é tirar essas enormes reservas de petróleo do Irã das mãos de terroristas”. Note o uso da palavra “terroristas” para descrever o governo de um país que não invadiu o território americano, que não atacou cidades costeiras da Flórida, que simplesmente existe sobre reservas energéticas que o império considera seu direito de controlar. A invasão do Irã, admitiu o funcionário, é “um ganho de longo prazo”. O sangue derramado? Mero “curto prazo”. Mero custo operacional. Mero “acontece”.
Isso deveria provocar náusea em qualquer cidadão que ainda acredite que democracias, por mais imperfeitas que sejam, carregam alguma responsabilidade moral diferente de ditaduras. Mas a máquina de propaganda funciona com tanta eficiência que mesmo a confissão explícita de motivações econômicas predatórias é engolida sem reflexão, substituída pelo mantra da “ameaça existencial” que nunca se concretizou.
Massacre de Minab: Quando Trump Acusou o Irã de Matar Suas Próprias Crianças
Se a banalização das mortes americanas já seria suficiente para caracterizar a desumanização da guerra, o episódio seguinte revela algo ainda mais profundo: a capacidade do poder de reescrever a realidade em tempo real, mesmo quando a evidência é incontestável.
Um jornalista perguntou a Trump sobre o bombardeio da escola primária de meninas em Minab, no sul do Irã, que matou 175 pessoas — a grande maioria crianças. A resposta presidencial veio sem hesitação: “Na minha opinião, com base no que vi, isso foi feito pelo Irã”. O Irã teria bombardeado sua própria escola. O Irã teria matado suas próprias meninas. O Irã, supostamente, é tão “impreciso com suas munições” que acerta propositalmente civis do lado de cá da fronteira.
O absurdo é tão gritante que parece desnecessário refutá-lo. Mas o momento mais revelador veio logo em seguida, quando Pete Hegseth contradisse Trump. “Certamente estamos investigando”, murmurou, visivelmente desconfortável. “Ainda estamos investigando”. A CNN, veículo de mídia americana, já havia confirmado a responsabilidade das forças armadas dos Estados Unidos. A “investigação” de Hegseth era, na verdade, uma tentativa de ganhar tempo para que a narrativa oficial se estabelecesse sobre os fatos.
Estamos diante de uma administração que não apenas comete crimes de guerra, mas que os nega com a mesma naturalidade com que nega a realidade climática ou os resultados eleitorais. É o negacionismo como política de Estado, aplicado agora ao sangue de crianças. E quando a evidência é incontestável, quando fotografias de corpos pequenos entre escombros circulam pelas redes sociais que o regime não consegue totalmente controlar, a culpa é transferida para a vítima. O Irã “não tem precisão”. O Irã “ataca civis”. O Irã, de alguma forma, forçou as mãos americanas a apertarem os gatilhos.
Esta não é apenas desinformação. É uma forma de violência epistemológica, um ataque à própria possibilidade de verdade compartilhada. Se o poder pode definir que o céu é verde e a grama é azul, pode também definir que escolas bombardeadas são “colaterais necessários” e que crianças mortas são “estratégia inimiga”. Quem controla a narrativa controla a história; quem controla a história controla a possibilidade de justiça.
Netanyahu Desaparecido: A Revolta dos Israelenses contra a Guerra
Enquanto Trump desumanizava os mortos americanos em Washington, outra cena igualmente reveladora se desenrolava a seis mil quilômetros de distância, na colônia de colonos que insiste em chamar a si mesma de “Estado de Israel”. Ali, entre os beneficiários históricos do apartheid e da ocupação, algo inesperado acontecia: a fachada de unidade nacional estava rachando.
Benjamin Netanyahu, o homem que ordenou a expansão da guerra Irã-Israel para além das fronteiras já sangrentas da Palestina, havia desaparecido da vida pública. Não figurativamente — literalmente. O primeiro-ministro, que deveria estar nos bunkers de comando ou nas transmissões de emergência, estava invisível. E seus próprios compatriotas, aqueles que durante décadas beneficiaram-se da política de colonialismo Israel-Palestina, começavam a exigir respostas.
Edna Halbani, ex-funcionária do governo israelense, escreveu nas redes sociais algo que soa quase subversivo vindo de alguém do establishment: “Que o primeiro-ministro venha ao público e nos atualize sobre a situação. Quais são os objetivos da guerra? O que conquistamos até agora? E quais são os planos para o futuro depois de oito dias de guerra e mísseis caindo sobre o país?”
A pergunta “o que conquistamos” carrega uma carga histórica devastadora. Porque a resposta, evidente para qualquer observador externo, é: nada, além de mais morte. Mais destruição. Mais isolamento internacional. Mais certeza de que a paz, quando finalmente vier, será imposta não pela generosidade vencedora, mas pela exaustão mútua. Mas para Halbani, como para tantos israelenses que acreditaram na narrativa da invulnerabilidade militar, a descoberta da fragilidade é traumática.
Ela continua, com uma indignação que mistura o pessoal e o político: “Diga-nos onde você, sua esposa e seus filhos estão durante os ataques de mísseis. Vocês correm para o abrigo, para o estacionamento ou para o quarto protegido como o resto dos cidadãos israelenses? Ou estão em alguma instalação subterrânea ou bunker que os protege tanto dos mísseis quanto da ira dos cidadãos?”
Esta é a pergunta que regimes autoritários temem mais do que qualquer míssil inimigo: onde estão os líderes quando o perigo chega? A resposta, na maioria das vezes, é que estão em bunkers luxuosos, enquanto mandam outros para morrer em seus nomes. Netanyahu, o homem que nunca serviu militarmente com destaque, que construiu carreira política sobre o cadáver da paz de Oslo, que enfrenta processos de corrupção que o tornariam prisioneiro em qualquer democracia funcional, agora esconde-se enquanto seu povo — ou pelo menos a parcela que até ontem o apoiava — enfrenta a retaliação de uma guerra que ele iniciou.
O jornalista NV Lillan foi mais direto: “Esse homem é um mentiroso, um vigarista, maligno, e iniciou uma guerra por iniciativa própria para impedir o avanço das investigações contra ele”. Aqui, finalmente, a verdade que circulava em sussurros nos corredores de Tel Aviv emerge em letras maiúsculas. A guerra não é sobre segurança. É sobre salvar a pele de um homem. Não é sobre o Irã. É sobre o tribunal de Jerusalém. Não é sobre o futuro de Israel. É sobre o futuro de Benjamin Netanyahu, cidadão de primeira classe, protegido por bunkers e advogados, enquanto cidadãos de segunda classe — os que não têm acesso a instalações subterrâneas — enfrentam o terror dos mísseis balísticos iranianos.
Um terceiro israelense, anônimo nas redes mas representativo de um sentimento crescente, escreveu: “Chega dessa guerra. Chega da marcha cega dos políticos da oposição atrás de Netanyahu e de seus extremistas. Estamos entrando em colapso. O sonho de uma vida melhor — ou mesmo apenas possível — está desaparecendo”.
Note o uso da palavra “colapso”. Não é derrota militar no sentido convencional. É colapso existencial. A descoberta de que o projeto sionista, na sua forma atual de expansão militarista e negação dos direitos palestinos, não oferece segurança, apenas ilusão. A descoberta de que viver em uma fortaleza permanentemente em guerra não é vida, é mero sobreviver. E que esse sobreviver, longe de ser garantido pelo poderio militar, é cada vez mais precário quanto mais o poder se exerce com brutalidade.
Drones vs. Império: A Matemática da Loucura na Guerra do Irã
Se a guerra moderna tem alguma lição a oferecer, é que a tecnologia democratizou a capacidade de resistência de maneiras que os estrategistas do Pentágono parecem incapazes de compreender. Enquanto Trump se vangloriava da destruição da marinha e da força aérea iranianas — afirmações impossíveis de verificar independentemente, dado o controle informativo —, outra realidade se imponha nos estúdios da Fox News, tradicional aliada do presidente.
Um comentarista da emissora, em momento de rara honestidade jornalística, admitiu o que a propaganda oficial tentava ocultar: “Estamos vendo mais drones atravessarem nossas defesas do que esperávamos”. A frase seguinte é ainda mais reveladora: “Mesmo um único drone inimigo atravessar nossas defesas e atingir uma embaixada americana no exterior é inaceitável”.
A matemática é simples e brutal. Drones iranianos custam, segundo estimativas, cerca de vinte mil dólares cada. Os interceptadores americanos, milhões. Marco Rubio, secretário de Estado, confirmou a insustentabilidade: “Nós só produzimos seis ou sete interceptadores por mês, cada um custando um milhão de dólares”. É a história de Davi e Golias revisitada para a era dos semicondutores, exceto que agora Davi tem fábricas em série e Golias descobriu que suas armaduras custam mais do que seu tesouro pode pagar.
Esta assimetria estratégica tem implicações geopolíticas do Oriente Médio profundas. O império americano, construído sobre a doutrina da superioridade tecnológica e do gasto militar ilimitado, descobre que seu adversário não precisa de porta-aviões de dez bilhões de dólares para impor custos inaceitáveis. Precisa apenas de engenhosidade, de componentes disponíveis no mercado civil, e da determinação de quem luta em casa contra quem luta longe dela.
O comentarista da Fox continuou, quase em tom de confissão: “Nossas instalações críticas ao redor do mundo têm estado vulneráveis”. É o reconhecimento tácito de que décadas de gastos militares focados em projetos grandiosos — caçadores invisíveis, navios do tamanho de cidades, mísseis hipersônicos — deixaram de lado a defesa contra ameaças assimétricas. O império construiu muralhas altas contra exércitos que não mais existem, enquanto seus inimigos aprenderam a escavar túneis por baixo.
E há algo poeticamente justo nessa inversão. O Irã, país que sofreu décadas de sanções econômicas destinadas precisamente a impedir seu desenvolvimento militar, desenvolveu capacidades que neutralizam a vantagem tecnológica do adversário através da criatividade e da necessidade. Não é o primeiro caso na história — o Vietnã, o Afeganistão, a Argélia oferecem precedentes sangrentos —, mas é talvez o mais emblemático da era da informação, onde a velocidade de adaptação supera a velocidade do gasto.
Censura em Israel: A Repressão da Verdade sobre os Mísseis Iranianos
A revolta pública em Israel, por mais tardia que seja, representa uma ameaça existencial ao regime de Netanyahu. Não militar — o exército israelense permanece funcionalmente superior às forças iranianas em muitos aspectos —, mas narrativa. Porque regimes baseados na mentira precisam controlar não apenas o que é dito, mas o que é visto.
Por isso, a resposta do governo israelense às imagens dos danos causados pelos ataques de mísseis do Irã não foi explicação, mas repressão. Qualquer cidadão que compartilhasse nas redes sociais fotografias de edifícios destruídos, de carros incendiados, de civis feridos, enfrentaria consequências legais. A justificativa oficial fala de “segurança operacional” e de não “auxiliar o inimigo”, mas a verdade é mais simples: o regime não pode permitir que seus cidadãos vejam o preço real da guerra que defende.
Esta é a lógica totalitária em sua forma mais pura. Não se trata apenas de censurar críticas ao governo — prática comum em democracias imperfeitas —, mas de impedir que a realidade física, tangível, mensurável, seja registrada e compartilhada. Se uma bomba cai em Tel Aviv e nenhuma câmera a registra, ela caiu? Se um míssil destrói um bairro e as redes sociais permanecem silenciosas, houve destruição? O regime aposta que, controlando o fluxo de imagens, pode controlar a percepção do dano, e portanto a disposição para continuar a guerra.
Mas a informação, como água, encontra frestas. Os apelos de Edna Halbani, de NV Lillan, de tantos outros israelenses desiludidos, circulam mesmo sob ameaça. E cada post deletado, cada conta suspensa, cada processo judicial ameaçado, serve apenas para confirmar o que o regime nega: que a guerra não está sendo vencida, que os danos são reais, que o líder é covarde.
A ironia é que este mesmo regime, e seus aliados americanos, nunca cansam de acusar adversários — especialmente o Irã — de censura e controle informativo. A acusação de “regime autoritário” é brandida como justificativa para sanções, para isolamento, para eventual intervenção militar. Mas quando as próprias práticas se aproximam daquelas que condenam, a hipocrisia é tão evidente que até os mais cegos partidários têm dificuldade em ignorá-la.

Aviso de Araqchi: A Simetria do Terror na Guerra Irã-EUA
Enquanto a administração Trump confundia-se em contradições sobre massacres de crianças e o governo israelense reprimia seus próprios cidadãos, o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araqchi, emitia um aviso que deveria gelar o sangue de qualquer estrategista racional. Depois que os Estados Unidos exibiram publicamente — com aquela mistura peculiar de arrogância e amadorismo que caracteriza o atual governo — imagens do bombardeio de refinarias de petróleo e de uma usina de dessalinização no Irã, Araqchi respondeu com clareza meridional: esses alvos, agora, são legítimos também para o Irã.
A implicação é devastadora. As refinarias de petróleo e as usinas de dessalinização não são instalações militares no sentido convencional. São infraestrutura civil bombardeada, cuja destruição afeta diretamente populações civis. Ao bombardeá-las, os Estados Unidos não apenas violaram as leis de guerra — conceito que parece arcaico diante do cinismo atual —, mas estabeleceram um precedente perigoso. Se é legítimo para Washington destruir a capacidade do Irã de fornecer água potável e energia a sua população, por que seria ilegítimo para Teerã fazer o mesmo em Haifa, em Tel Aviv, ou em qualquer das bases americanas espalhadas pelo mundo árabe?
Esta é a lógica da escalada que os chamados “falcões” de ambos os lados parecem incapazes de compreender. Cada ação gera reação. Cada violação de norma estabelece nova norma. Cada “exceção” justificada pela “necessidade militar” torna-se regra para o adversário. O resultado não é vitória, é mutual assured destruction em câmera lenta, onde civilização após civilização é reduzida a escombros enquanto líderes em bunkers declaram “vitórias estratégicas”.
O fato de os Estados Unidos terem usado território do Bahrein para atacar a usina de dessalinização iraniana acrescenta outra camada de complexidade. Estamos diante de uma regionalização do conflito, onde países que tentavam manter alguma distância são arrastados para a espiral de violência. O Bahrein, monarquia sunita profundamente dependente de Riad e Washington, pode ter calculado que a participação garantiria proteção futura. O cálculo é arriscado. A história do Oriente Médio está repleta de aliados menores que foram sacrificados quando a conveniência estratégica assim exigiu.
Petróleo do Irã: A Confissão Final sobre a Invasão Americana
Voltemos à confissão do funcionário do regime trumpista, aquela que deveria estar em manchetes de todos os jornais do mundo: “O que queremos é tirar essas enormes reservas de petróleo do Irã das mãos de terroristas… vamos tirar todo o petróleo das mãos de terroristas”.
Aqui, finalmente, a máscara cai completamente. Não há programa nuclear — que, mesmo que existisse em forma de arma, seria destruído em minutos pelos arsenais israelenses e americanos. Não há “exportação de revolução” — o Irã, desde a fatídica guerra com o Iraque, tem sido notavelmente cauteloso em confrontações diretas. Não há ameaça existencial a Israel — exceto a que nasce da própria opressão do povo palestino, que o Irã explora diplomaticamente mas não criou.
Há, isso sim, o segundo maior reservatório de petróleo do mundo. Há o Estreito de Ormuz, através do qual passa um terço do petróleo global. Há a possibilidade de controlar não apenas a produção, mas o preço, a distribuição, a geopolítica energética de meio século. E há a obsessão americana, que remonta ao pacto de Quincy em 1945, de garantir que nenhum poder regional controle recursos que Washington considera de seu domínio natural.
A expressão “tirar das mãos de terroristas” é particularmente cínica. O Irã é um estado soberano, membro das Nações Unidas, com governo eleito — por mais imperfeitas que sejam suas eleições — e história milenar. Chamá-lo de “terrorista” enquanto se bombardeiam suas escolas e se confiscam seus recursos naturais é uma inversão orwelliana que deveria provocar riso, se não fosse tão sangrenta. Mas serve ao propósito retórico: transformar o roubo em libertação, a agressão em defesa, o militarismo americano em cruzada moral.
E o “benefício de longo prazo” mencionado pelo funcionário? Imagine-o: décadas de controle americano sobre campos petrolíferos iranianos, operados por empresas de Houston e Nova York, com lucros repatriados e royalties mínimos para qualquer governo fantoche que se instale em Teerã. É o Iraque de 2003, repetido com a esperança de resultado diferente. É o Irã de 1953, quando a CIA derrubou Mossadegh por ousar nacionalizar o petróleo, revisitado com drones e mísseis de precisão.
Mas há uma diferença crucial entre 1953 e 2026. Em 1953, o Irã estava isolado, sem aliados significativos, sem capacidade de resistir. Em 2026, Teerã tem laços com Pequim e Moscou, tem proxies na Síria, no Líbano, no Iêmen, tem capacidade de bloquear o Estreito de Ormuz e paralisar a economia global. A invasão que parece “breve excursão” para Trump — outra de suas frases memoravelmente desumanas — pode facilmente tornar-se o ponto de inflexão que acelera a transição para um mundo multipolar, onde o dólar não é rei e onde a capacidade de Washington de impor sua vontade por força está diminuída, não aumentada.
O Peso da História e a Responsabilidade de Testemunhar
Oito dias de guerra. Centenas de mortos. Escolas destruídas. Líderes escondidos. Narrativas desmoronando. E, no centro de tudo, a revelação brutal de que para o império, vidas humanas — americanas, iranianas, israelenses — são meras variáveis em uma equação de lucro e controle.
Escrevo isto não como neutro observador, porque neutralidade diante de crimes é cumplicidade. Escrevo como alguém que acredita que a função do jornalismo, mesmo em tempos de colapso da indústria e de proliferação de desinformação, é testemunhar e nomear. Testemunhar o sofrimento dos vulneráveis — as famílias dos soldados americanos enganados, as meninas de Minab, os cidadãos israelenses traídos por seu próprio governo. E nomear os responsáveis — não com eufemismos de “falhas de inteligência” ou “erros de cálculo”, mas com a clareza de quem reconhece crimes quando os vê.
A história não será gentil com esta época. Olhará para trás e verá a arrogância de impérios em declínio, a covardia de líderes que enviam outros para morrer, a rapacidade mascarada de idealismo. Mas olhará também, espero, para os atos de resistência iraniana — grandes e pequenos — de quem se recusou a aceitar a lógica da guerra como inevitável. Os jornalistas que continuaram a reportar apesar das ameaças. Os cidadãos israelenses que exigiram accountability de seu governo. Os iranianos que, mesmo sob bombardeio, mantiveram a dignidade de quem defende seu solo.
E olhará para nós, leitores e cidadãos do mundo, com a pergunta que não quer calar: o que fizemos enquanto acontecia? Porque “coisas acontecem” não é apenas a desculpa covarde de um presidente irresponsável. É a tentação de todos nós, diante da magnitude dos horrores, de recuar para a passividade, de aceitar que não há nada a ser feito, de transformar nossa impotência em resignação.
Mas há sempre algo a ser feito. Começa com ver, realmente ver, além das manchetes e dos discursos oficiais. Continua com falar, mesmo quando a fala parece inútil. E exige, sempre, o compromisso de não deixar que a banalização do mal — aquela que transforma crianças mortas em “colaterais” e soldados caídos em “coisas que acontecem” — se torne nossa própria linguagem.
A guerra continua. Netanyahu continua escondido. Trump continua contando navios destruídos como quem conta pontos em jogo de videogame. E nós, testemunhas deste momento, continuamos a escrever, a ler, a resistir à tentação do silêncio. Porque no final, quando a história for escrita, o que importará não é quem tinha mais mísseis, mas quem manteve sua humanidade intacta.
Um Alerta Final: Prepare-se, Converse, Fique Junto
Mas antes que eu me despeça, uma palavra direta para você que chegou até aqui. Converse com seus filhos, seus pais, aqueles que moram sob o mesmo teto que você. Diga o que precisa ser dito, organize o que pode ser organizado, porque temos um louco solto pondo fogo no mundo — e a chama já alcançou nossa porta. É uma pena, uma pena enorme, que seja durante nossa vez de respirar neste planeta que tudo isso aconteça. Tempos loucos, sim. Mas não precisamos ser loucos nós também. Fique atento. Fique junto. E que a lucidez nos acompanhe, mesmo quando tudo ao redor insistir em queimar.
Renato Mendes de Andrade
Jornalista | Jornal Ambiente
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