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A Guerra no Irã que a Mídia Não Ousa Contar

Última atualização em 25 de março de 2026 Jornalista RenatoGlobol

A Guerra no Irã que a Mídia Não Ousa Contar: Um Chamado à Resistência Criativa

Em Campinas, nesta manhã de março de 2026, enquanto o café esfria na xícara e as manchetes dos portais piscam com alertas de “tensão no Oriente Médio” com a guerra no Irã, eu me pergunto quantos leitores realmente compreendem o que está em jogo. Não o espetáculo de drones e declarações inflamadas, mas o lento, inexorável desfazer de um mundo que ainda finge ser o mesmo de ontem. O texto que tenho diante de mim — uma conversa densa, quase profética, com Jiang Xueqin — não é mera previsão. É um espelho. Nele se revela, com clareza cortante, como a indústria cultural e midiática transformou uma crise de proporções civilizatórias numa sequência de clipes curtos, gráficos chamativos e análises de trinta segundos. Alienação não é palavra abstrata: é o que acontece quando o preço do barril de petróleo a cento e vinte dólares — quase o dobro de semanas atrás — é reduzido a “impacto nos combustíveis” e o risco de remilitarização global vira mera nota de rodapé.

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guerra no irã
Jiāng Xuéqín; nascido em 1974 é um educador, escritor, historiador e teórico geopolítico sino-canadense radicado em Pequim, China. Ele é conhecido por suas contribuições para a reforma educacional na China

Jiang Xueqin não fala como analista de plantão. Ele fala como quem, mesmo sem cátedra universitária, leu o século XIII mongol, a Restauração Meiji e os escombros de 1945 no Japão. Sua voz atravessa o Atlântico e chega até mim, em plena São Paulo interiorana, carregada de uma consciência histórica que o jornalismo convencional abandonou há décadas. Ele descreve a guerra no Irã como uma guerra de atrito idêntica à da Ucrânia: nenhum lado cede, ambos preferem o desgaste coletivo à humilhação da negociação. O Estreito de Ormuz vira gargalo, o gás iraniano é alvejado, o Conselho de Cooperação do Golfo retalia, e o petróleo dispara. Voos cancelados, racionamento de combustível no Sudeste Asiático, escassez de alimentos à vista. A morte de Ali Khamenei no primeiro dia de ataques, a ascensão de Mojtaba, o assassinato de Ali Larijani duas semanas depois — tudo isso não é acidente. É o desdobramento lógico de um sistema que, durante trinta anos, apostou na energia barata como oxigênio da globalização. Agora o oxigênio acaba, e a mídia trata o sufocamento como “notícia de economia”.


Aqui reside o diagnóstico que não posso calar: a indústria cultural e midiática produz alienação sistemática ao simplificar o que é visceralmente complexo. Reduzimos realidades de longa duração — o colapso do petrodólar, a fragilidade das cadeias de suprimento japonesas, a resiliência cultural do povo persa — a consumos rápidos, títulos clicáveis, lives de dez minutos. O espectador sai entretido, mas vazio. Não aprendeu a sentir o peso histórico do que está acontecendo. Não percebe que a desindustrialização que Xueqin antevê não é uma tendência distante: é o retorno forçado da população urbana aos campos, porque sem energia barata não há como sustentar megacidades. Não vê que a remilitarização do mundo — Japão, Coreia do Sul, Europa — é o fim da Pax Americana e o renascimento de um mercantilismo brutal, onde cada nação rica em recursos ou mão de obra vira alvo ou aliado de conveniência. A alienação não é falha técnica. É projeto. É o combustível que mantém o espetáculo rodando enquanto o chão se abre.


O jornalismo convencional, esse que se diz “imparcial” e “equilibrado”, abdicou há muito de sua função de mediação crítica. Tornou-se eco servil de poderes estabelecidos. Prioriza velocidade sobre profundidade, formato sobre substância. Enquanto Xueqin, com paciência de historiador, explica por que o Japão pode surpreender o mundo — citando a vitória sobre os mongóis, a Meiji, a reconstrução pós-Hiroshima —, os telejornais repetem o mantra “conflito no Golfo” como se fosse futebol. Quando ele aponta que Israel persegue o sonho do Grande Israel, do Nilo ao Eufrates, e que esta guerra pode ser o instrumento para expulsar os Estados Unidos do Oriente Médio, a grande imprensa fala em “defesa legítima”. Quando ele alerta que a China, apesar de todo o poder econômico, será a menos resiliente nessa nova era de energia cara porque sua prosperidade foi construída sobre importação barata e exportação em massa, os colunistas econômicos limitam-se a gráficos de variação cambial. O jornalismo virou repetidor de narrativas oficiais. Perdeu a capacidade — ou a coragem — de dizer que o imperador está nu.


Eu vivo essa contradição diariamente. Como jornalista, escritor, designer e produtor cultural, circulo entre redações, estúdios e telas. Vejo colegas exaustos produzindo conteúdo em ritmo industrial, enquanto o sentido profundo escorre entre os dedos. Vejo leitores que, bombardeados por notificações, já não distinguem entre uma guerra de atrito e um reality show. A empatia social, pilar que nunca nego, me obriga a lembrar: por trás de cada “escalada da guerra no Irã” há famílias iranianas sem água potável porque usinas de dessalinização foram atingidas; há jovens japoneses que terão de escolher entre o teclado e o fuzil; há sul-coreanos cuja baixa natalidade, fruto de uma economia oligopolizada e competitiva, se tornará tragédia demográfica quando o Norte perceber que Seul está a trinta minutos de artilharia. Essas são vidas concretas. Não estatísticas. Não pixels.

guerra no irã - Jornal Ambiente


É exatamente por isso que a terceira proposição deste arco não pode ser mera esperança: ela é imperativo ético. A integração de jornalismo, arte e tecnologia surge como prática de resistência. Não como fuga, mas como ponte. Transformar a crítica em linguagem habitável. Fazer da palavra não um muro, mas uma casa onde o leitor possa habitar o pensamento. Aqui, no Jornal Ambiente, esse é o compromisso que assumimos desde a fundação. Usamos design para tornar visível o invisível — um mapa interativo do Estreito de Ormuz que mostra, em tempo real, quanto petróleo passa por ali e quanto custará à economia global se for fechado. Usamos música e poesia para dar densidade emocional ao que a frieza dos números esconde. Usamos tecnologia não para acelerar o consumo, mas para desacelerar a compreensão: podcasts longos, ensaios visuais, experiências imersivas que permitem ao público sentir o peso histórico que Xueqin carrega em cada frase.


Quando ele afirma que investiria “todo o dinheiro” no Japão em vez de na China, não está fazendo aposta financeira. Está lendo o caráter cultural de um povo que, mesmo derrotado e arrasado, reconstruiu-se em uma geração — enquanto Donald Trump anuncia pausas negociadoras que o Irã nega, e o preço do barril oscila entre a esperança e o pânico. Quando ele observa que a Coreia do Sul, apesar de sua economia centralizada, carrega uma memória longa de colonialismo e uma ética do trabalho fanática, está apontando para a possibilidade de reunificação coreana como saída criativa num tabuleiro que Washington abandonou. Quando ele alerta que o Conselho de Cooperação do Golfo viveu sobre uma miragem — deserto transformado em arranha-céus com dinheiro do petróleo e proteção americana —, está dizendo que o fim dessa miragem não é tragédia apenas para Dubai, mas para o modelo civilizatório que apostou tudo na energia barata e na ilusão da eternidade.


A proposta de futuro que defendemos não é utópica. É concreta. É o jornalismo que não se contenta em relatar que o Irã foi atacado, mas que explica por que Ali Larijani — secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, morto em ataque israelense em 17 de março — representava, para alguns, uma figura de continuidade institucional num cenário de colapso. É a arte que transforma o risco nuclear em imagem que não se apaga da retina. É a tecnologia que permite ao leitor de Campinas, de Fortaleza ou de Belém navegar pelos mesmos mapas mentais que um educador chinês usa para ler o presente. Essa integração não neutraliza o poder concentrado; ela o confronta. Não promete salvação fácil; promete densidade. E densidade, em tempos de simplificação, é ato de rebeldia.

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Não escrevo estas linhas como observador neutro. Escrevo como alguém que se recusa a ser cúmplice. O silêncio diante da simplificação midiática da guerra no Irã seria cumplicidade com o regime de alienação que nos empurra para o abismo. Jiang Xueqin, de sua sala de aula na China, nos oferece um antídoto: olhar para o passado não como nostalgia, mas como bússola. O Japão do século XIII uniu-se contra o império mongol. O Japão de 1868 reinventou-se em trinta anos. O Irã de amanhã, mesmo devastado, pode erguer-se sobre o controle do Estreito de Ormuz e o orgulho persa. A Europa, que abriu as portas em 2014 e hoje colhe o fruto amargo da desassimilação, pode ainda aprender que multiculturalismo sem dominante cultural é ilusão. Os Estados Unidos, que se veem como fortaleza continental, terão de decidir se colonizam Canadá e México por recursos ou se reinventam como parceiro numa nova ordem mundial.

guerra no irã
A guerra no Irã

Há anos venho desenvolvendo uma forma de pensar e agir que atravessa disciplinas. Chamo isso de SOLARA. Um jeito de ver e agir no mundo que não se contenta em criticar, mas que se propõe a construir — mesmo em meio ao caos.

A escolha, no fundo, é nossa. Ou continuamos consumindo a guerra no Irã como entretenimento, ou transformamos o jornalismo numa prática viva, interdisciplinar, habitável. Ou aceitamos a alienação como destino, ou fazemos da crítica uma linguagem que une mundos possíveis. O texto de Xueqin não é profecia de fim. É convite à resistência. E eu, como fundador e editor do Jornal Ambiente — este espaço autoral que nasceu em Campinas como tentativa de jornalismo que atravessa disciplinas —, decido responder a esse convite com a única ferramenta que ainda tenho: a palavra que não se curva, a análise que não se apressa, o olhar que se recusa a simplificar o que é profundamente humano.


Porque, no fim das contas, a guerra no Irã não está apenas no Golfo. Está dentro de cada decisão que tomamos hoje sobre o que contar, como contar e por que contar. E contar, neste momento, é resistir.

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