Última atualização em 18 de abril de 2026 Jornalista RenatoGlobol
O Universo Pulsa. A consciência da interdependência nos torna potentes.

O vento que agora toca meu rosto
O vento que agora toca meu rosto, neste instante em que escrevo, já passou por uma floresta em chamas no coração da Amazônia. Já atravessou os pulmões de uma criança asmática na periferia de pequenas cidades com Olímpia no interior de São Paulo. Já carregou partículas de plástico do Pacífico e o cheiro de terra molhada de um assentamento do MST. Antes de chegar até mim aqui no distrito de Barão Geraldo em Campinas SP, esse vento percorreu um caminho que nenhum mapa consegue traçar por completo. E depois de me tocar, seguirá adiante — para encontrar você, talvez, ou para se perder em algum canavial onde trabalhadores vivem e morrem sob o peso de uma colheita que nunca será deles.
A recusa que virou revisitação
Dizer que o universo pulsa, confesso, soava em meus ouvidos como algo reservado a poetas ou a vendedores de cursos de autoajuda com pitadas de misticismo barato. Durante muito tempo, recusei essa ideia. Achava que falar em “pulsar cósmico” era um jeito elegante de fugir das contradições concretas do mundo — do desemprego, da fome, da violência policial, do racismo estrutural. Mas o tempo, e a realidade, têm uma ironia implacável: eles nos obrigam a revisitar o que descartamos como irrelevante.
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Movimento, ritmo e materialidade
O universo pulsa. Não porque uma força misteriosa o anime de fora para dentro, mas porque tudo o que existe, do átomo à galáxia, está em movimento constante. E esse movimento não é aleatório nem puramente mecânico. Ele tem ritmo. Tem ciclos. Tem expansões e contrações, ordem e desordem, vida e morte. A física nos mostra isso há décadas, mas a política, a economia e o nosso cotidiano insistem em agir como se fôssemos exceções — como se o ser humano pudesse pairar acima desse fluxo, imune à sua própria materialidade.
Não podemos.

Quando o cansaço não é apenas pessoal
Lembro de uma conversa com dona Maria, líder comunitária na zona leste de São Paulo, em 2019. Ela me disse algo que nunca esqueci: “A gente anda cansado, mas não é só cansaço de trabalho, não. É como se o mundo inteiro estivesse pesando aqui.” Ela colocou a mão no peito. Naquele momento, achei que era uma forma poética de descrever a exaustão de quem luta por creche, por saneamento, por segurança. Hoje entendo que ela estava descrevendo algo mais profundo: a percepção — ainda que não nomeada — de que seu corpo, sua comunidade, sua lógica de vida estavam em descompasso com um ritmo mais amplo.
O ritmo alucinado que nos quebra
O que dona Maria sentia era a contradição entre o pulso natural do universo — feito de espera, de plantio e colheita, de descanso e movimento — e o ritmo alucinado que o capitalismo nos impõe. Produzir sem parar. Consumir sem pensar. Crescer sempre, mesmo num planeta finito. Esse ritmo não é humano. Ele quebra corpos, adoece mentes, destrói ecossistemas. E a sensação de exaustão generalizada que atravessa nossa época não é um acidente: é o grito de algo que está sendo forçado a pulsar num andamento que não lhe pertence.
Uma pergunta política, não psicológica
A pergunta que me faço, e que me recuso a deixar apenas no campo da filosofia, é esta: por que insistimos em agir como se fôssemos independentes de tudo e de todos? Por que a ideia de que “o universo está em nós e nós nele” soa, para tantos, como uma ameaça à liberdade individual?
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A resposta, creio, não é psicológica. É política.
A invenção do “eu” autossuficiente
A modernidade nos vendeu uma bela ficção: a de que somos indivíduos autônomos, donos de nós mesmos, capazes de trilhar nosso caminho independentemente do contexto. O neoliberalismo refinou essa ficção nos anos 1980 e 1990, transformando-a em mantra: não existe sociedade, existem indivíduos e suas famílias. Cada um por si. O sucesso é mérito pessoal. O fracasso é culpa individual.
Essa história é confortável para quem está no topo. Se o rico é rico porque se esforçou, não precisa pagar impostos para sustentar os “preguiçosos”. Se o pobre é pobre porque não teve iniciativa, não há injustiça estrutural a ser combatida. O mundo se torna uma competição justa — ou pelo menos assim gostamos de imaginar.
Mas a realidade, como sempre, escorre pelos dedos.
A pandemia que escancarou o óbvio
Em 2020, a pandemia de covid-19 escancarou o óbvio: não existimos isolados. Um vírus que surgiu num mercado na China parou o mundo inteiro. A falta de leitos em Manaus fez corpos esperarem em filas por oxigênio. A recusa de um presidente em agir coletivamente custou centenas de milhares de vidas. E ainda assim, mesmo depois de tudo, muitos insistiram em negar a interconexão. “Cada um por si e deus por todos” — eis a frase que sintetiza a ilusão de separação levada ao extremo.
Fora da rede de relações, nada existe
O problema não é o cuidado consigo ou seu o próprio corpo. O problema é acreditar que ele existe fora de uma rede de relações. Meu corpo respira o mesmo ar que o seu. Minha comida foi plantada por mãos que nunca verei. Minha roupa foi costurada em algum galpão com condições análogas à escravidão. Não há neutralidade nisso. Não há isolamento.
O universo pulsa, e nós pulsamos com ele — quer admitamos ou não.
A física e a favela: o mesmo movimento
Há algo profundamente revelador no fato de que as comunidades mais pobres e vulneráveis compreendem essa interdependência muito antes dos intelectuais e dos economistas. Não porque tenham estudado teoria dos sistemas, mas porque vivem na pele o que significa depender do outro. Num lugar onde o Estado não chega, onde o mercado falha, onde o saneamento é precário e a segurança é um sonho distante, a sobrevivência exige cooperação. É o vizinho que empresta açúcar. É a associação de moradores que organiza o mutirão para limpar o beco. É a mãe que cuida do filho do outro enquanto o outro cuida do seu.
A bolha dos ricos e a vulnerabilidade que ensina
Essa não é uma romantização da pobreza. É a constatação de que a vulnerabilidade sistêmica ensina, pela dor, o que as universidades muitas vezes ensinam de forma abstrata: ninguém se salva sozinho.
Por outro lado, os mais ricos podem se dar ao luxo de acreditar na própria autossuficiência — pelo menos até que uma crise os atinja. O condomínio fechado, o carro blindado, o plano de saúde de elite, a escola particular: tudo isso é uma tentativa de construir uma bolha de separação. Mas as bolhas estouram. A crise climática não respeita muros. Um deslizamento de terra atinge tanto o barraco quanto a mansão — embora o barraco seja varrido com muito mais frequência.
Desigualdade como erro estratégico
É aqui que a política entra. Porque se o universo pulsa, se tudo está em movimento e em relação, então a desigualdade não é apenas uma injustiça moral. É um erro estratégico. É um desrespeito ao ritmo da vida.
Os vulneráveis sabem da interconexão antes de nós
Mariana, 2015: quando o tempo se partiu em dois
Em novembro de 2015, tudo mudou de uma vez. O rompimento da barragem em Mariana despejou cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos no Rio Doce — uma onda de lama que não era só terra, mas silêncio, perda e interrupção.
Ela avançou por centenas de quilômetros, engolindo comunidades, apagando rotinas, levando junto histórias que estavam em curso — almoços em família, trabalho, infância, planos. Os peixes desapareceram, a água deixou de ser confiável, e o que antes era fonte de vida virou motivo de medo.
Para muita gente, não foi apenas um desastre ambiental. Foi o momento em que o tempo se partiu em dois: antes e depois. E o “depois” nunca mais conseguiu se parecer com o que existia antes.
O saber dos ribeirinhos contra a arrogância da empresa
Os ribeirinhos, os pescadores, os indígenas Krenak — todos eles sabiam, muito antes dos engenheiros e executivos da Samarco, que aquela lama não ficaria contida. Não por teoria, mas por convivência. Conheciam o tempo do rio, o comportamento da água, os sinais da terra. Sabiam que aquilo iria seguir seu caminho, atravessar tudo, alcançar todos. A empresa, porém, agiu como se pudesse controlar o que nunca esteve sob controle. Colocou o lucro acima da vida real. O resultado foi um crime ambiental cujas marcas ainda hoje permanecem — não só na paisagem, mas nas pessoas.

O corpo vivo da Terra e nossa perigosa consciência
O mesmo padrão se repete em Brumadinho, em 2019. E se repetirá enquanto tratarmos a Terra como um depósito e não como um corpo vivo.
Não estou usando metáfora quando digo “corpo vivo”. Os cientistas já nos mostram que o solo respira, que os microrganismos formam redes de cooperação, que as florestas se comunicam através de fungos. O universo pulsa, sim, mas não como um relógio suíço — e sim como um organismo complexo, cheio de falhas, adaptações e surpresas. A diferença é que nós, humanos, desenvolvemos uma ferramenta perigosa: a consciência reflexiva. Podemos escolher ignorar o pulso. Podemos tentar acelerá-lo, desacelerá-lo, distorcê-lo. Mas não podemos pará-lo. E cada tentativa de forçar um ritmo que não é o nosso — crescimento infinito, extração sem reposição, produtividade sem descanso — gera sofrimento real, concreto, mensurável.
Se o que você leu aqui fez sentido, saiba que existe um espaço onde essa visão se desdobra em prática. Chama-se SOLARA. Um laboratório de regeneração, convivência e autonomia. Comece onde está.
Não há salvação no isolamento
Talvez o ponto mais incômodo dessa visão seja sua implicação direta sobre o que entendemos por liberdade. Se estamos todos interligados, se o universo pulsa em nós e nós nele, então não somos soberanos absolutos de nossas vidas. Nossas escolhas afetam os outros. O ar que poluo hoje vai intoxicar alguém amanhã. O voto que deixo de dar no politico que faz alguma coisa de bom pro grupo, o dinheiro que invisto em uma empresa predatória, o produto que compro sem questionar — tudo isso reverbera.
Agência individual e potência coletiva
Isso não significa que não exista agência individual. Pelo contrário: significa que nossa agência é mais importante do que imaginamos, porque ela nunca é solitária. Cada ato individual é também um ato coletivo. A ilusão de isolamento nos torna irresponsáveis. A consciência da interdependência nos torna potentes.
As enchentes no Rio Grande do Sul (maio de 2024)
Pense no que aconteceu no Rio Grande do Sul em maio de 2024. As enchentes que devastaram o estado não foram um desastre natural no sentido estrito — foram um desastre socioambiental construído por décadas de desmatamento, impermeabilização do solo, ocupação irregular de várzeas e, claro, pela crise climática agravada pela queima de combustíveis fósseis. Mas o que vi nos noticiários, e o que ouvi de amigos que perderam tudo, foi algo mais: uma explosão de solidariedade que parecia vir de outro tempo. Pessoas abrindo suas casas. Desconhecidos resgatando desconhecidos de barcos improvisados. Cozinhas comunitárias nascendo em estacionamentos de supermercados.
Na tragédia, o pulso se torna visível
Na tragédia, o pulso se tornou visível. Porque quando o movimento natural do planeta se choca com a arrogância humana, o que resta é a verdade nua: somos feitos de relações. E quando as relações são ameaçadas, ou nos unimos ou perecemos.
O amor como infraestrutura
Não tenho medo de usar essa palavra, embora ela tenha sido desgastada por tanto discurso vazio. Amor, aqui, não é um sentimento romântico ou uma energia mística. É a escolha consciente de sustentar o outro porque seu bem-estar está ligado ao meu. É a decisão de construir sistemas — políticos, econômicos, sociais — que reconheçam a interdependência humana como base e não como exceção.
Expressões concretas do amor
O cooperativismo, a economia solidária, a agroecologia, a habitação popular, o SUS universal, a escola pública de qualidade: tudo isso são expressões concretas desse amor. São tentativas de organizar o pulso humano em sintonia com o pulso maior do planeta. E são tentativas que o poder hegemônico — o poder do capital, da exploração, da separação — ataca com ferocidade.
A desigualdade desmorona diante da interconexão
Porque se reconhecermos que estamos todos no mesmo movimento, a justificativa para a desigualdade desmorona. Não há mérito individual que explique por que uns têm tanto e outros tão pouco quando o próprio ar que respiramos é comum. Não há esforço pessoal que justifique a miséria num mundo onde a terra produz o suficiente para todos. A desigualdade não é um acidente do ritmo universal. É uma imposição de um ritmo artificial — o do lucro, da acumulação, da competição — sobre um corpo que não foi feito para isso.
Conclusão: Participar ou Perecer?
Volto ao vento que me tocou no início. Ele não perguntou minha opinião antes de chegar. Não pediu permissão. Ele veio porque o universo pulsa, e eu estou aqui, e isso é suficiente para que eu seja afetado.
A pergunta que fica não é teórica. É prática: como vamos organizar nossa vida coletiva a partir dessa constatação? Vamos continuar agindo como se fôssemos ilhas autossuficientes, até que o mar suba e nos engula um a um? Ou vamos finalmente admitir que a única saída é o caminho compartilhado?
A mentira confortável e a verdade viva
Não tenho a ingenuidade de acreditar que bastará um artigo, um discurso, uma boa intenção. O poder que sustenta a ilusão da separação é imenso. Ele tem nome, endereço e conta bancária. Ele se alimenta da nossa crença de que podemos vencer sozinhos. Mas também se enfraquece cada vez que um mutirão levanta um telhado, cada vez que uma greve unifica categorias diferentes, cada vez que uma mãe empresta o leite para o filho do vizinho.
O universo pulsa. Nós pulsampos. Negar isso é escolher a dor de cabeça contra a parede. Aceitar isso é abrir a porta para algo que assusta tanto quanto liberta: a responsabilidade compartilhada.
E, honestamente, não vejo outro caminho. Não depois de ver o que vi, de ouvir o que ouvi, de sentir o que senti. A separação é uma mentira confortável, mas é mentira. A verdade — que estamos todos, sempre, em movimento juntos — é mais dura, mais exigente, mais viva. E é somente nela que a esperança deixa de ser abstrata para se tornar prática.
Respire fundo
Respire fundo. O ar que você puxa agora já foi de alguém que morreu e será de alguém que ainda vai nascer. O universo pulsa dentro de você. A questão é se você vai lutar para que esse pulso seja justo.
Há anos venho desenvolvendo uma forma de pensar e agir que atravessa disciplinas. Chamo isso de SOLARA. Um jeito de ver e agir no mundo que não se contenta em criticar, mas que se propõe a construir — mesmo em meio ao caos.
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