Última atualização em 3 de fevereiro de 2026 Jornalista RenatoGlobol
Este texto expressa um ponto de vista assumido. Não busca consenso artificial, não se esconde atrás de neutralidade vazia e não pede licença para existir. É uma reflexão crítica, politicamente situada e emocionalmente honesta sobre o Beeiro O Bloco, sobre o que ele representa em Barão Geraldo, em Campinas, e sobre o que ele diz — de forma clara e incômoda — a respeito do futuro da cultura popular brasileira. Escrevo como alguém que vive o território, conhece sua história social, sente seus conflitos e se recusa a tratar o carnaval como mercadoria ou caricatura turística. O Jornal Ambiente não observa a vida de fora. Toma partido. E aqui, o partido é o das comunidades, das crianças, da memória e da cultura como direito.
O Beeiro O Bloco não é apenas um bloco. Ele é um gesto político. E não no sentido partidário estreito, mas no sentido mais profundo da palavra política: aquilo que organiza a vida em comum, define quem pertence e quem é descartável, quem tem direito à alegria e quem deve apenas trabalhar em silêncio.
Beeiro O Bloco e o território como identidade viva

Barão Geraldo não é um bairro genérico. É um distrito com história própria, atravessado por migrações internas, imigração europeia, presença negra invisibilizada e uma urbanização marcada por desigualdades claras. Campinas, cidade que se orgulha de indicadores econômicos e universidades de excelência, também carrega uma tradição racista profunda, típica do interior paulista que enriqueceu com café, escravidão e depois industrialização seletiva. Ignorar isso é falsificar a história.
O nome Beeiro nasce da oralidade, da fala caipira atravessada pela imigração italiana, da adaptação popular da palavra “abelheiro”. Não é erro linguístico. É marca histórica. É a língua real, falada por quem construiu os bairros com as próprias mãos, longe dos gabinetes, dos cartórios e das versões oficiais da cidade. Transformar Beeiro em identidade é um ato de afirmação cultural. É dizer que a cidade não pertence apenas aos que escrevem a história, mas aos que a vivem.
O slogan “Beeiro, a colmeia de Barão Geraldo” não é poético por acaso. Ele traduz uma ideia coletiva, comunitária, solidária. Uma colmeia não existe sem cooperação. Não existe sem trabalho conjunto. Não existe sem cuidado com o futuro. Essa metáfora não poderia ser mais adequada num país que insiste em exaltar o individualismo enquanto destrói seus vínculos sociais.
Carnaval comunitário não é nostalgia, é disputa de projeto

Há quem trate iniciativas como o Beeiro O Bloco como folclore, como resquício romântico de um passado que não volta mais. Essa leitura é preguiçosa e politicamente conveniente para quem prefere um carnaval capturado por grandes marcas, prefeituras-espetáculo e interesses econômicos que transformaram a festa popular em produto de exportação.
O carnaval comunitário nunca foi atraso. Ele sempre foi o núcleo do carnaval. Antes dos sambódromos, dos camarotes corporativos e das transmissões televisivas editadas, o carnaval acontecia nos bairros, nos clubes pequenos, nas ruas de convivência real. Era ali que crianças aprendiam ritmo, pertencimento e convivência. Era ali que a cultura se transmitia de geração em geração, sem edital, sem marketing e sem curadoria elitista.
Defendo explicitamente esse modelo. Rejeito o carnaval como evento higienizado, controlado por grandes patrocinadores, que expulsa moradores, encarece o território e transforma cultura em ativo financeiro. Apoio o Beeiro O Bloco justamente porque ele vai na contramão dessa lógica.
Crianças no centro: uma escolha ética e política

A decisão de organizar uma matinê de carnaval, com crianças como público central, não é detalhe logístico. É uma escolha ética. É dizer que o futuro da cultura não está no espetáculo para turistas, mas na formação afetiva e simbólica das novas gerações.
Num país que naturalizou a violência contra crianças negras, periféricas e pobres, colocar crianças no centro da festa é um ato de resistência. É afirmar que elas têm direito à alegria, à rua, ao tambor, à fantasia e à memória. Não se trata de infantilizar o carnaval, mas de devolvê-lo ao seu papel formador.
Quem cresceu em bairros como os de Barão Geraldo sabe que a rua sempre foi espaço ambíguo: lugar de encontro e também de vigilância, controle e exclusão. O carnaval comunitário ressignifica a rua. Ele transforma o espaço urbano em território de afeto e reconhecimento. Isso não é ingênuo. É profundamente político.
Racismo estrutural, respeito condicionado e dizem muito sobre o Brasil
É impossível falar de carnaval comunitário sem falar de racismo estrutural. Campinas, como tantas cidades do interior paulista, construiu uma narrativa de progresso que apagou sistematicamente a presença negra. Famílias negras só foram “aceitas” quando se tornaram úteis, trabalhadoras exemplares, religiosas, silenciosas. O respeito vinha condicionado. Não era direito, era concessão.
O carnaval sempre foi uma fissura nesse sistema. Um espaço onde corpos negros puderam existir com potência, som, presença e alegria. Mestres de bateria, ritmistas, costureiras, organizadores de bloco sempre foram lideranças comunitárias, mesmo quando o poder público fingia não ver.
O Beeiro O Bloco se insere nessa tradição. Não como espetáculo de denúncia explícita, mas como prática cotidiana de afirmação. Ele não pede autorização para existir. Ele existe porque o bairro existe. Porque a memória existe. Porque as crianças existem.
Escolas pequenas, blocos grandes em significado

Há um fetiche no Brasil por grandeza. Sambódromos gigantes, escolas milionárias, carros monumentais. Isso alimenta o imaginário do sucesso, mas esvazia o sentido da cultura. Escolas pequenas, blocos de bairro, baterias comunitárias carregam algo que o espetáculo perdeu: vínculo.
Manter uma escola pequena “feito um bloco” não é fracasso. É coerência. É recusa a transformar cultura em empresa. Mestres de bateria como Ricardo Andrade e figuras como Betinho ocupam um lugar histórico fundamental: são guardiões do ritmo, do tempo coletivo, da memória não escrita.
Eles organizam mais do que desfiles. Organizam relações. Organizam pertencimento. Organizam futuro.
O que o Jornal Ambiente apoia — e o que rejeita
O Jornal Ambiente apoia explicitamente iniciativas como o Beeiro O Bloco. Apoia o carnaval comunitário, territorial, popular, feito por quem vive o lugar. Apoia políticas públicas que fortaleçam cultura de base, não apenas grandes eventos. Apoia a ideia de que cultura é direito, não favor nem mercadoria.
Rejeitamos a captura do carnaval por corporações que usam a festa para lavar imagem enquanto precarizam trabalho. Rejeitamos a lógica de editais excludentes que beneficiam sempre os mesmos. Rejeitamos o discurso de que tradição popular precisa se “modernizar” para sobreviver, quando o que se exige é que ela se submeta ao mercado.
O futuro do carnaval não está em mais patrocínio. Está em mais pertencimento.
Beeiro O Bloco como projeto de futuro

Falar de futuro, no Brasil de hoje, é um exercício difícil. Vivemos sob pressão constante de crises econômicas, ambientais e políticas. Mas é justamente por isso que iniciativas como o Beeiro O Bloco importam. Elas constroem futuro no nível mais básico e mais poderoso: o simbólico.
Uma criança que cresce tocando tambor, entendendo o bairro como colmeia, aprendendo que alegria é coletiva, não será um adulto indiferente. Cultura não resolve tudo, mas forma sujeitos. E sem sujeitos conscientes, não há democracia que sobreviva.
O Beeiro O Bloco não vai salvar o Brasil. Mas ele salva algo igualmente essencial: a ideia de que ainda podemos nos reconhecer uns nos outros.
Conclusão: tomar partido é um dever
Este texto não busca agradar gestores culturais acomodados, nem patrocinadores, nem os que veem o carnaval apenas como entretenimento. Ele existe porque é necessário dizer, com todas as letras, que o Beeiro O Bloco representa o melhor da tradição carnavalesca brasileira: comunidade, memória, criança, ritmo e futuro.
Tomar partido, neste caso, é um dever moral e jornalístico. O Jornal Ambiente escolhe estar ao lado da colmeia, não do veneno. Ao lado do bairro, não da vitrine. Ao lado das crianças, não do lucro.
E enquanto houver tambor batendo em Barão Geraldo, enquanto houver gente que se reconhece no Beeiro, o carnaval seguirá vivo — não como produto, mas como expressão legítima de quem somos e de quem ainda podemos ser.

