Última atualização em 10 de fevereiro de 2026 Jornalista RenatoGlobol
Desigualdade e Pobreza no Brasil: Um Problema Estrutural

Desigualdade e Pobreza no Brasil: um problema estrutural que exige coragem histórica
Falar de desigualdade e pobreza no Brasil está longe de ser um exercício frio de analisar tabelas, gráficos ou relatórios do IBGE. No fundo, é falar de pessoas de carne e osso, de sonhos que nem chegaram a ganhar forma, de talentos que ficaram pelo caminho simplesmente porque a oportunidade nunca bateu à porta. É falar de crianças que aprendem cedo demais que o futuro, por aqui, não é um direito distribuído de maneira justa, mas quase um privilégio reservado a poucos. Por isso, este texto não finge neutralidade: a desigualdade e a pobreza no Brasil não são acidentes de percurso, nem falhas isoladas do mercado, muito menos resultado exclusivo de escolhas individuais. Elas fazem parte de uma engrenagem histórica, política e econômica sustentada por decisões concretas tomadas ao longo de séculos por governos, elites e instituições.
Escrevo sem esconder o lugar de onde falo. Neutralidade diante da injustiça social, quase sempre, funciona como uma forma silenciosa de mantê-la viva. A desigualdade e a pobreza no Brasil não são um tema distante para mim; atravessam o olhar de quem caminha pelas cidades, observa o cotidiano e se recusa a aceitar que desenvolvimento possa existir enquanto a dignidade continuar sendo exceção. Um país só amadurece de verdade quando viver com respeito deixa de ser privilégio e passa a ser regra simples da convivência humana.
A herança colonial que insiste em permanecer
O Brasil nasceu desigual — e isso não é figura de linguagem, é história concreta. A colonização portuguesa organizou este território para extrair riqueza e enviá-la para fora, concentrando terra, poder e oportunidades nas mãos de poucos, enquanto milhões de pessoas eram submetidas à violência da escravidão. Diferentemente de sociedades que, em algum momento, enfrentaram suas próprias distorções com reformas profundas ou revoluções capazes de redistribuir poder, o Brasil seguiu adiante carregando quase intactas as estruturas de dominação construídas entre os séculos XVI e XIX, como se certas injustiças tivessem aprendido a sobreviver ao próprio tempo.
A escravidão, aqui, não foi apenas um modelo econômico. Foi um mecanismo brutal de desumanização que determinou quem poderia estudar, possuir terra, ter renda, ser reconhecido como gente. Quando a abolição chegou, em 1888, veio vazia de futuro: não houve terra para quem foi libertado, não houve escola em escala suficiente, não houve reparação, não houve cuidado. Houve silêncio. Houve abandono. E esse abandono não ficou preso às páginas dos livros de história. Ele continua presente nas periferias de São Paulo, nas favelas do Rio de Janeiro, nas comunidades rurais do Nordeste e nos números insistentes que revelam a população negra ocupando, geração após geração, os lugares mais duros da desigualdade brasileira.
Negar essa continuidade histórica é confortável para quem se beneficia dela. Mas a desigualdade e a pobreza no Brasil só podem ser compreendidas quando se reconhece que o passado não passou.
Terra, poder e silêncio político
A concentração fundiária brasileira atravessou Império, República Velha, ditadura militar e redemocratização praticamente intacta. Grandes propriedades continuaram sendo sinônimo de poder econômico e influência política, enquanto milhões de trabalhadores rurais permaneceram sem acesso à terra.
A reforma agrária, tema recorrente em campanhas eleitorais, raramente saiu do discurso. Quando avançou, foi de forma tímida e frequentemente sabotada por interesses organizados. O resultado é um país que figura entre os maiores produtores agrícolas do mundo e, ao mesmo tempo, convive com insegurança alimentar. Essa contradição não é natural; é política.
Há quem tente reduzir o debate agrário a uma disputa ideológica, como se falar em distribuição de terra fosse automaticamente sinônimo de radicalismo. O que raramente se diz é que países hoje considerados desenvolvidos realizaram reformas profundas justamente para democratizar oportunidades. O Brasil preferiu preservar privilégios.
A economia que cresce sem incluir
Nas últimas décadas, diferentes governos prometeram crescimento econômico como solução para a desigualdade. Parte dessa promessa se cumpriu em momentos específicos, sobretudo quando políticas de transferência de renda, valorização do salário mínimo e ampliação do acesso à universidade foram colocadas em prática. Milhões de brasileiros saíram da pobreza extrema, e isso não pode ser apagado por conveniência ideológica.
Mas também é verdade que ciclos de austeridade fiscal, cortes em políticas sociais e prioridade absoluta ao equilíbrio das contas públicas frequentemente recaíram sobre quem já tinha menos. A desigualdade e a pobreza no Brasil resistem porque o crescimento econômico, sozinho, não redistribui poder. Sem educação pública forte, saúde acessível, moradia digna e emprego de qualidade, o PIB vira estatística distante da vida concreta.
O debate econômico brasileiro ainda é dominado por uma lógica que trata direitos sociais como gasto excessivo e benefícios financeiros como necessidade inevitável. Essa inversão de prioridades tem nome: escolha política.
O sistema tributário que pune quem tem menos
Poucos temas revelam de forma tão clara a estrutura desigual do país quanto a tributação. No Brasil, quem ganha menos paga proporcionalmente mais. Impostos sobre consumo pesam no arroz, no feijão, no gás de cozinha, no transporte. Já a tributação sobre grandes fortunas, heranças volumosas e lucros elevados permanece limitada.
Essa arquitetura não surgiu por acaso. Ela foi construída ao longo do tempo sob influência de grupos econômicos com forte presença no Congresso Nacional. Mudar esse sistema exige enfrentamento direto com interesses poderosos, e é justamente por isso que a reforma tributária profunda costuma ser adiada.
Enquanto isso, a desigualdade e a pobreza no Brasil continuam sendo financiadas por quem mais sofre com elas. É uma engrenagem silenciosa, mas extremamente eficiente em perpetuar privilégios.
Violência, medo e ausência de futuro
A desigualdade social não produz apenas carência material. Ela produz também ruptura de vínculos, sensação de abandono e descrença coletiva. Em territórios onde o Estado chega apenas pela polícia e nunca pela escola de qualidade ou pelo posto de saúde estruturado, o crime organizado encontra espaço para se apresentar como alternativa de pertencimento e renda.
Reduzir a violência a uma questão exclusivamente policial é ignorar suas raízes sociais. Países que conseguiram diminuir drasticamente a criminalidade investiram em educação, urbanização, cultura e oportunidades econômicas. Segurança pública sem justiça social costuma ser apenas contenção temporária.
A desigualdade e a pobreza no Brasil, portanto, não são apenas problema moral. São também problema de segurança, de desenvolvimento e de estabilidade democrática.
Mobilidade social interrompida
Existe uma promessa silenciosa que sustenta qualquer sociedade: a ideia de que a próxima geração viverá melhor que a anterior. Quando essa promessa se quebra, instala-se um sentimento difuso de frustração coletiva.
No Brasil, a mobilidade social continua limitada pelo local de nascimento, pela cor da pele e pela renda familiar. Crianças que crescem em bairros ricos frequentam escolas melhores, têm acesso a idiomas, tecnologia, redes de contato. Crianças das periferias enfrentam escolas precárias, transporte demorado e necessidade precoce de trabalhar.
Não se trata de mérito individual. Trata-se de ponto de partida. E enquanto os pontos de partida forem tão desiguais, falar apenas em esforço pessoal será uma forma elegante de ignorar a realidade.
O papel do Estado e a disputa de projetos
Todo debate sobre desigualdade esconde uma pergunta central: qual deve ser o tamanho da responsabilidade coletiva na garantia de dignidade? Há quem defenda um Estado mínimo, confiando que o mercado resolverá as distorções. Há quem, como eu, veja na ação pública forte o único caminho historicamente comprovado para reduzir desigualdades profundas.
Experiências internacionais mostram que educação pública universal, sistemas de saúde robustos, proteção trabalhista e tributação progressiva foram decisivos para construir sociedades menos desiguais. Não há exemplo consistente de país que tenha alcançado bem-estar social amplo abandonando os mais vulneráveis à própria sorte.
No Brasil, essa disputa de projetos permanece aberta. E ela define, na prática, quem viverá com dignidade e quem continuará sobrevivendo.
Esperança concreta, não retórica
Apesar do cenário duro, a história brasileira também registra avanços reais. A ampliação do acesso à universidade pública, os programas de transferência de renda, o fortalecimento do SUS, as políticas de cotas raciais e sociais mostraram que desigualdades podem ser enfrentadas quando há decisão política.
Essas conquistas nunca foram consensuais. Sempre enfrentaram resistência de setores que temiam perder privilégios. Ainda assim, produziram transformação concreta na vida de milhões de pessoas. Isso prova que a desigualdade e a pobreza no Brasil não são destino inevitável. São escolhas reversíveis.
Esperança, portanto, não é ingenuidade. É projeto.
Um posicionamento necessário
Este artigo não busca agradar todos os lados. Busca afirmar algo simples e urgente: aceitar a desigualdade extrema como parte natural do Brasil é desistir do próprio país.
Defendo um modelo de desenvolvimento que coloque a dignidade humana acima da lógica exclusiva do lucro, que enfrente privilégios históricos com coragem democrática e que trate justiça social não como discurso, mas como prioridade orçamentária. Rejeito a ideia de que pobreza seja falha moral individual ou consequência inevitável do progresso econômico.
A desigualdade e a pobreza no Brasil são construções humanas. E tudo o que é construído pode ser transformado.
A pergunta que permanece não é se sabemos o que precisa ser feito. A pergunta real é se teremos coragem coletiva para fazer.
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
- Banco Mundial
- Organização das Nações Unidas (ONU)
- Fundo Monetário Internacional (FMI)
- Desigualdade no Brasil – BBC
- Redução da Pobreza e Desigualdade no Brasil – Banco Mundial

Por: Renato Mendes de Andrade

