Pular para o conteúdo

Despolitização brasileira em 2024

Última atualização em 10 de fevereiro de 2026 Jornalista RenatoGlobol

Kamala Harris

Este texto é um ato de resistência contra a amnésia e uma defesa apaixonada da política como ferramenta de transformação material. Escrevo não como observador imparcial, mas como alguém que acredita que o pensamento crítico é o último antídoto contra a servidão voluntária. A despolitização brasileira que testemunhamos em 2024, expressa de forma cristalina na reação de setores da esquerda à ascensão de Kamala Harris nos Estados Unidos, não é um fenômeno inócuo. É um sintoma grave de uma doença que corrói a capacidade do país de pensar por si mesmo, de definir seus próprios interesses e de lutar por um projeto nacional que não seja refém das agendas e dos espelhos quebrados do Norte global. Este artigo assume um lado: o lado da soberania intelectual, da clareza estratégica e da defesa intransigente dos mais pobres. Rejeita a substituição da luta de classes pelo culto às personalidades e a geopolítica pela emoção identitária desenraizada. Aqui, nomearemos nomes, apontaremos contradições e faremos a pergunta que muitos evitam: em nome de quê, e de quem, estamos celebrando?

O Espetáculo da Representatividade e a Abdicação do Julgamento Político

A notícia da saída de Joe Biden da corrida presidencial e a consolidação de Kamala Harris como candidata democrata provocaram, em parcelas significativas da intelligentsia e do ativismo de esquerda brasileiro, um surto de euforia. A deputada federal Talíria Petrone, do PSOL, encapsulou esse sentimento em um tweet que mais parecia um grito de torcida: “Não devemos titubear em eleger a primeira mulher presidente dos Estados Unidos!”. A frase, em sua simplicidade aterrorizante, é um monumento à despolitização brasileira. Primeiro, pela arrogância inconsciente: “nós”, brasileiros, não elegemos presidente estadunidense algum. O pleito é deles. A fala revela um complexo de vira-lata reverso, uma vontade de participar, mesmo que simbolicamente, do grande jogo do poder mundial, como se nosso endosso valesse algo. Segundo, e mais grave: o critério único anunciado é o gênero e a cor da candidata. Toda a história material de Kamala Harris, seu passado como procuradora-geral da Califórnia, suas posições políticas concretas, somem ante o ícone.

Kamala Harris construiu parte de sua carreira em um sistema de justiça notoriamente punitivista. Como procuradora, defendeu condenações que mantiveram milhares de negros e latinos pobres encarcerados, opôs-se a reformas que visavam libertar presos por cannabis e lutou para sustentar condenações já consideradas injustas. Esta é a biografia que se apaga quando a celebramos apenas como “a primeira”. É a mesma lógica perversa que transformou Barack Obama, um presidente que expandiu o programa de assassinatos por drones, deportou milhões de imigrantes e manteve Guantánamo aberta, em um ícone global progressista. A representatividade no topo, desacoplada de um projeto redistributivo radical e de uma revisão das estruturas de poder, é uma cortina de fumaça. Pior: é uma cortina de fumaça que setores da esquerda brasileira parecem inalar com entusiasmo, abrindo mão do seu dever crítico mais elementar. Essa celebração acrítica não é solidariedade internacionalista; é submissão a uma narrativa fabricada em Washington.

Identitarismo Como Projeto Geopolítico: As Fundações, o Dinheiro e o Esvaziamento da Luta

Como Chegamos Aqui? O Desvio Bem Financiado da Luta

Como nossa política se esvaziou a ponto de celebrar símbolos vazios? A culpa não é da “estupidez” de ninguém. É o resultado de um redirecionamento estratégico, lento e bem financiado. Para encontrar a raiz da despolitização brasileira, precisamos voltar ao abismo dos anos 1990. Com a queda da União Soviética, o capitalismo se declarou vitorioso. No chamado “Consenso de Washington”, o Estado foi desmontado e o neoliberalismo avançou de forma cruel.

Foi nesse momento de desalento coletivo que as grandes fundações norte-americanas – Ford, Rockefeller, Open Society de George Soros – moveram seus recursos de forma massiva. A estratégia era sutil e poderosa: diante da fúria social gerada pela própria desmontagem econômica, era preciso canalizar esse descontentamento legítimo para causas que, por mais importantes, não atingissem o coração do sistema.

Assim, lutas urgentes e justas contra o racismo, o machismo e a LGBTfobia passaram a receber um fluxo generoso de dólares, mas com um viés claro: o foco deveria ser representatividade e inclusão dentro da ordem, nunca uma confrontação com a ordem econômica em si. A despolitização brasileira nasceu desse desvio. Ofereceu-se oxigênio para a luta identitária, mas sob a condição tácita de que ela deixasse de lado a luta de classes. Foi uma troca histórica: visibilidade e recursos em troca do desarme do projeto de transformação radical.

Assim, causas identitárias legítimas – contra o racismo, o machismo, a LGBTfobia – começaram a receber fluxos generosos de dólares, mas com um viés específico: a despolitização de seu conteúdo. A luta deixava de ser sobre a redistribuição de riqueza, o fim da propriedade privada dos meios de produção, o confronto com o imperialismo, e passava a ser sobre representatividade em espaços de poder, linguagem inclusiva e diversidade nos conselhos administrativos de multinacionais. A “intersecionalidade”, conceito poderoso cunhado por Kimberlé Crenshaw para demonstrar como opressões se sobrepõem, foi muitas vezes cooptada e transformada em uma lista de identidades a serem incluídas no status quo, não em uma ferramenta para demolir o status quo. Este projeto foi um sucesso estrondoso. Ele domesticou movimentos sociais, criou uma vasta rede de ONGs dependentes de financiamento externo e, no Brasil, produziu uma geração de ativistas e intelectuais que pensa mais em termos de “narrativas” do que em termos de poder de classe.

Quando Talíria Petrone celebra Kamala Harris, ela está, muitas vezes de forma não intencional, ecoando o ponto final desse projeto: a política como afirmação de identidade, esvaziada de conteúdo econômico revolucionário. É um triunfo do soft power norte-americano. Enquanto isso, debates fundamentais para o Brasil – reindustrialização, reforma agrária, controle sobre o fluxo de capitais, integração soberana com América do Sul e África, nacionalização de setores estratégicos – são colocados em segundo plano, rotulados como “ultrapassados” ou “economicistas”. A despolitização brasileira é, nesse sentido, um projeto de colonização intelectual bem-sucedido.

A Geopolítica do Partido Democrata: Por que a Emoção com Kamala Harris é um Risco para o Brasil

Aqui reside o cerne da questão e o motivo da minha indignação: a política externa dos Estados Unidos, seja sob Democratas ou Republicanos, tem sido historicamente um desastre para a América Latina e para o Brasil. A diferença está no método, não no objetivo final. Os Republicanos, como Donald Trump, são brutais e transacionais. Seus elogios a Jair Bolsonaro foram explícitos, e seu movimento inspira as forças de extrema-direita no Brasil. Não há ilusão possível. Já o Partido Democrata, especialmente em sua face Obama-Biden-Harris, é mais sofisticado. Fala em “democracia”, “direitos humanos” e “aliança entre povos”. Essa linguagem seduz uma esquerda despolitizada, ansiosa por encontrar um “lado bom” no império.

Mas a história não mente. Foi o democrata Barack Obama e sua vice, Joe Biden, que orquestraram o golpe em Honduras em 2009, consolidando um regime de terror que ainda hoje assombra o país. Foi a administração Obama-Biden, com Hillary Clinton como secretária de Estado, que transformou a Líbia em um Estado falido, em uma das intervenções mais criminosas do século XXI. Foi o mesmo governo que expandiu a rede de espionagem global, revelada por Edward Snowden, incluindo a espionagem massiva contra a Petrobras e a presidente Dilma Rousseff. A ação do embaixador americano no Brasil durante as eleições de 2022, articulando-se com as instituições para conter os ímpetos golpistas de Bolsonaro, não foi um ato de amor à democracia brasileira. Foi um cálculo de realpolitik: o caos institucional permanente no Brasil é ruim para os negócios e para a estabilidade regional que os EUA preferem gerir.

O que podemos esperar de Kamala Harris? Tudo indica uma continuação dessa linha, com um verniz mais identitário. Ela não é uma disruptora do establishment; ela é sua mais perfeita criação. Será uma presidenta que, muito provavelmente, manterá o cerco contra a China, pressionando o Brasil a se alinhar; que usará a retórica ambiental para impor barreiras comerciais; que tratará a América Latina como seu quintal, agora com um sorriso mais diverso. A euforia com sua candidatura entre a esquerda brasileira prepara o terreno para uma desmobilização crítica. Quando o governo Harris tomar uma decisão que prejudique o Brasil – e ele tomará –, como reagirão aqueles que a celebraram como ícone? A despolitização brasileira nos coloca de joelhos, aplaudindo nossos próprios algozes porque eles falam a linguagem correta das redes sociais.

Por um Internacionalismo Soberano: A Única Saída para a Esquerda Brasileira

A alternativa a essa armadilha não é o isolamento ou a simpatia por Donald Trump. A alternativa é um internacionalismo radicalmente soberano, ancorado nos interesses do povo brasileiro e na solidariedade concreta com os povos do Sul global. Significa entender que a luta contra o racismo e o machismo é indissociável da luta contra o capital financeiro internacional e o imperialismo. Que uma mulher negra no comando do império continua sendo a comandante-em-chefe do império. Que a verdadeira descolonização começa na mente, na recusa a importar agendas e a se emocionar com espetáculos que não são nossos.

A esquerda brasileira precisa urgentemente de uma terapia de choque. Precisa redescobrir pensadores como Alberto Guerreiro Ramos, que falava em “redução sociológica” – a necessidade de filtrar as teorias estrangeiras pela nossa realidade concreta. Precisa retomar o debate sobre o desenvolvimento nacional, um tema que não é de direita ou de esquerda, mas de sobrevivência. O que significa ser um país soberano no século XXI? Como construir uma base tecnológica própria? Como industrializar sem destruir o bioma? Como negociar com EUA, China e Europa sem virar vassalo? Estas são as questões que deveriam incendiar nossos debates.

Celebrar Kamala Harris como um marco progressista é um erro categórico. É a rendição final ao identitarismo despolitizante. A verdadeira luta não é por ver rostos diversos no comando das estruturas que nos oprimem. A verdadeira luta é por mudar as estruturas. O povo preto e pobre do Brasil não será salvo por uma procuradora-geral que se tornou presidenta dos EUA. Será salvo por uma política econômica que gere empregos, por uma reforma agrária que distribua terra, por um sistema de justiça que não criminalize a pobreza. É nesta trincheira, suja, difícil e pouco glamourosa, que a esquerda deve se recolocar.

A despolitização brasileira de 2024, exemplificada nesse delírio coletivo em torno de Kamala Harris, é um beco sem saída. É a vitória da forma sobre o conteúdo, do símbolo sobre a substância, do império sobre a nação. Sair deste beco exige coragem para criticar os próprios campos, para nomear os financiadores do consenso, para colocar o Brasil – seu povo, seu território, seu futuro – no centro da análise. Este artigo é um chamado para essa reinserção. O mundo não é um palco onde somos espectadores. É uma arena onde lutamos, e a primeira condição para vencer é saber quem somos, o que queremos e, sobretudo, contra quem e contra o que estamos lutando. O resto é ilusão, e ilusão, no jogo brutal do poder, é um luxo que um país periférico como o nosso não pode mais se permitir.

Kamala Harris

 


Para mais informações sobre política internacional e seus impactos, visite Foreign Policy e Council on Foreign Relations.

 

Por: Renato Mendes de Andrade – Jornalista – MTB 72.493/SP

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Essa reflexão nasce da convicção de que, no mundo atual, quem não constrói sua própria voz pública acaba vivendo sob a narrativa dos outros. Pensar é o primeiro passo. Posicionar-se é o segundo. Na Globol, transformamos pensamento em presença digital estratégica para quem deseja ser autor da própria trajetória — e não apenas espectador do mundo.” incremente no bloco abaixo, depois pretendo copiar e colar, apena insira esse conteúde siga essas regras e não altere nada.

Esclarecimento E Apoio - Clique e assista ao video abaixo e entenda.

 

Chave pix: pix@globol.com.br

Clique aqui e doe qualquer valor
🌍Seu Apoio, Nossa Energia🌍

Caros leitores,

O Jornal Ambiente é uma voz dedicada à sustentabilidade e à qualidade da informação. Sua generosidade e a parceria com a classe trabalhadora nos impulsionam.

  • Doações via Pix para “pix@globol.com.br” fortalecem nosso movimento em prol de um planeta mais verde e próspero.
  • Como assinante Premium, você terá acesso a conteúdo exclusivo e interações com nossa equipe.
  • Outra maneira valiosa de nos apoiar é adquirir produtos e serviços de nossos anunciantes, compartilhando nossos valores ambientais. Cada transação fortalece nosso jornal e contribui para a continuidade de nosso trabalho. Juntos, moldamos um futuro sustentável para as gerações vindouras.

pix@globol.com.br

 
 
RenatoGlobol RenatoGlobol