Última atualização em 9 de dezembro de 2024 Jornalista RenatoGlobol
A Engrenagem da Escassez: Como a Dívida Pública Brasileira Sequestra o Futuro do Nosso Povo

A manhã em São Paulo, especificamente na região da Baixada do Glicério, começa com o som metálico das cortinas de ferro se levantando, mas o ar carrega um peso que não é apenas a poluição do Rio Tamanduateí. É o peso de uma conta que nunca fecha. Enquanto a dona Maria separa os poucos reais para o café e o pão francês — cujo preço subiu porque o trigo é cotado em dólar e a nossa moeda é fustigada pela volatilidade especulativa —, em Brasília, nos gabinetes acarpetados do Banco Central e do Ministério da Fazenda, a prioridade não é o prato de Maria. A prioridade é a manutenção religiosa do pagamento de juros e amortizações da dívida pública brasileira. É um escândalo cotidiano, aceito com uma naturalidade aterradora pelas elites, que quase metade de tudo o que este país produz seja drenado para um ralo invisível que alimenta o sistema financeiro, enquanto as creches da periferia de Fortaleza ou os hospitais de campanha no interior do Pará mendigam por recursos básicos.
Este não é um debate técnico sobre planilhas de Excel; é uma disputa por sobrevivência. Quando olhamos para o Orçamento Federal e percebemos que 46% dele está comprometido com o serviço da dívida, estamos testemunhando um mecanismo de transferência de renda reversa: tira-se do trabalho, do suor de quem acorda às cinco da manhã, para garantir o rentismo de quem vive de juros em coberturas no Leblon ou em escritórios na Faria Lima. A dívida pública brasileira tornou-se a coleira que impede o Brasil de caminhar em direção à sua autonomia, transformando o Estado em um mero gestor de pagamentos para bancos como Itaú, Bradesco e Santander, além de fundos de investimento internacionais que veem no nosso desastre social uma oportunidade de lucro garantido pelo Tesouro Nacional.
O Rentismo como Projeto de Poder e a Asfixia da Produção Real
A lógica que impera hoje no Brasil é a de um agiota que se instalou na sala de estar da nação. Não há coragem intelectual nas análises dos grandes jornais comerciais; há apenas a reprodução do medo. Dizem que “o mercado está nervoso”, como se o mercado fosse uma entidade divina e não um grupo de operadores focados em extrair o máximo de valor no menor tempo possível. Rejeito veementemente essa submissão. O que o Comitê de Política Monetária (Copom) faz ao manter taxas de juros estratosféricas é um crime de lesa-pátria. Juros altos não servem apenas para “controlar a inflação”; eles servem para paralisar o setor produtivo. O empresário de médio porte em Curitiba ou o dono de uma pequena fábrica de calçados em Nova Serrana hesitam em contratar, em expandir, em inovar. Por que arriscar no mundo real se o ganho fácil e garantido está nos títulos da dívida pública brasileira?
Essa estrutura cria uma economia de deserto. Onde deveria haver investimento em infraestrutura logística, em ferrovias que cortassem o Mato Grosso para escoar a produção sem destruir as estradas, há apenas a esterilidade dos números financeiros. O governo de turno, independentemente da sigla, vê-se encurralado por um Congresso Nacional que, em grande parte, atua como despachante do poder econômico. Instituições como a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) exercem uma pressão silenciosa e eficaz, garantindo que qualquer tentativa de auditoria da dívida ou de taxação de lucros e dividendos seja lida como “instabilidade institucional”. Enquanto isso, o povo brasileiro paga a conta através de uma carga tributária injusta, que incide sobre o consumo — o arroz, o feijão, o gás de cozinha — e poupa as grandes fortunas.
A Mentira da Escassez e o Falso Dilema Fiscal
Lembro-me das discussões em 2016, quando o famigerado Teto de Gastos foi implementado sob a gestão de Henrique Meirelles e Michel Temer. A promessa era de que o “sacrifício” traria investimentos. Foi uma mentira deslavada. O que vimos foi a degradação acelerada do Sistema Único de Saúde (SUS) e o desmonte das universidades federais. A austeridade nunca é aplicada ao andar de cima. O pagamento da dívida pública brasileira nunca entrou no teto. Ou seja, pode faltar merenda escolar em Maceió, mas não pode faltar um centavo para o credor do sistema financeiro. É uma escolha política deliberada. O Estado brasileiro não está quebrado; ele está sendo saqueado por um sistema legalizado de agiotagem institucional.
Apoio integralmente a proposta de uma auditoria cidadã da dívida. Precisamos saber para quem devemos, quanto já pagamos e qual a origem desses juros que se multiplicam de forma anatocista. Sem transparência, a democracia é um teatro de sombras. Países que enfrentaram suas dívidas com soberania, como a Islândia após a crise de 2008, mostraram que é possível colocar os bancos na parede em defesa do bem comum. No Brasil, fazemos o oposto: o Banco Central atua com uma “independência” que, na prática, é a dependência total da agenda da Faria Lima. Essa autonomia sequestrada retira do voto popular o poder de decidir a política econômica, tornando as eleições um exercício de escolha estética, já que o “tripé macroeconômico” e a fidelidade canina aos credores da dívida pública brasileira permanecem intocáveis.
O Impacto Humano da Austeridade Seletiva nas Periferias
Para compreender o que significa a drenagem de recursos pela dívida pública brasileira, é preciso sair dos gabinetes de vidro e caminhar pelas ruas de bairros como Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, ou Sol Nascente, no Distrito Federal. A falta de saneamento básico, que condena crianças a doenças evitáveis, é o resultado direto do dinheiro que “evapora” para pagar juros. Cada ponto percentual na taxa Selic representa bilhões que deixam de ser investidos em moradia popular. É uma violência estrutural que tem cor e classe social. Os mais vulneráveis, a população negra e periférica, são os que mais sofrem com a ausência de um Estado indutor do desenvolvimento, pois o Estado está ocupado demais garantindo o superávit primário.
Rejeito a ideia de que “não há dinheiro”. O Brasil é uma das maiores economias do mundo, possui reservas internacionais robustas e uma capacidade produtiva imensa. O problema é a distribuição. O sistema tributário brasileiro é um dos mais regressivos do planeta. Um professor em Belo Horizonte paga proporcionalmente mais imposto do que um herdeiro de uma grande corporação de agronegócio em Mato Grosso que exporta commodities sem pagar ICMS, graças à Lei Kandir. Essa injustiça fiscal é o combustível que mantém a máquina da dívida pública brasileira girando, enquanto o trabalhador comum vê seu poder de compra ser triturado pela inflação de custos e pela falta de serviços públicos de qualidade que o obriguam a pagar por saúde e educação privada, endividando-se ainda mais.
Soberania Monetária e a Necessidade de um Novo Pacto Nacional
Não haverá futuro digno para o Brasil enquanto a política econômica for pautada pelo medo do “risco país”. O verdadeiro risco é a fome, é o desemprego, é a desindustrialização precoce que transforma o país em uma fazenda gigante voltada para o exterior. Precisamos recuperar a nossa soberania monetária e utilizar o crédito público para financiar a transição energética, a reindustrialização verde e a infraestrutura social. A dívida pública brasileira deve ser encarada como uma ferramenta de investimento, e não como uma corrente que nos prende ao passado colonial. Isso exige coragem intelectual para enfrentar o dogma neoliberal que domina as faculdades de economia e as redações dos grandes veículos de comunicação.
O Jornal Ambiente toma partido: estamos ao lado do trabalhador que vê seu salário ser corroído antes do fim do mês. Estamos contra a plutocracia que governa este país através de algoritmos financeiros e lobby parlamentar. A reforma que o Brasil precisa não é a que retira direitos trabalhistas, mas a que tributa o topo da pirâmide e audita a dívida pública brasileira. É necessário desmascarar o discurso técnico que esconde a intenção política de manter o Brasil como um eterno exportador de matéria-prima e importador de tecnologia e dívida. O orçamento deve servir à vida, à cultura, ao meio ambiente e à dignidade humana, não ao lucro obsceno de meia dúzia de instituições financeiras que não produzem um prego, mas controlam o destino de 200 milhões de pessoas.
A Educação como Arma e a Organização Popular como Caminho
Educar a população sobre o funcionamento do sistema financeiro é uma urgência democrática. O endividamento das famílias brasileiras, que hoje atinge níveis alarmantes, é o espelho da dívida do Estado. O cidadão é induzido ao crédito consignado e ao cartão de crédito com juros abusivos porque o seu salário é insuficiente, e o salário é insuficiente porque a economia não cresce, e a economia não cresce porque os juros da dívida pública brasileira impedem o investimento. É um ciclo deliberado de dominação pelo débito. Quebrar essas correntes exige organização popular, pressão sobre o Congresso e a ocupação dos espaços de debate público por vozes que não foram compradas pelo sistema financeiro.
Concluo este relato com a indignação de quem vê um país de riquezas infinitas ser governado pela lógica da escassez programada. O Brasil tem pressa. Pressa de comer, de morar, de sonhar. Mas enquanto a dívida pública brasileira for tratada como uma divindade intocável, o pão continuará custando caro e o futuro continuará sendo adiado. É hora de inverter as prioridades. É hora de colocar a vida das pessoas acima dos lucros dos bancos. Justiça social não se faz com retórica; se faz com orçamento, com coragem política para enfrentar os donos do capital e com o compromisso inabalável de que nenhum brasileiro deve ser deixado para trás em nome de um ajuste fiscal que só serve aos que já têm tudo. A prosperidade deve ser um direito conquistado pelo trabalho e garantido pelo Estado, não um privilégio negociado em bolsas de valores.
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Por: Renato Mendes de Andrade – Jornalista – MTB 72.493/SP

