Última atualização em 1 de fevereiro de 2026 Jornalista RenatoGlobol
Por que a guerra contra o Irã será o Vietnã de Trump

Escrevo este texto com a razão alerta e o estômago embrulhado. Não como um observador distante, mas como alguém que acompanha, estuda e sente o peso histórico do que está em curso. Estamos diante de um momento decisivo — e perigosíssimo — da política externa dos Estados Unidos. A escalada militar contra o Irã, conduzida por Donald Trump com arrogância, improviso e desprezo pela realidade, não é apenas mais um capítulo ruidoso da diplomacia norte-americana. É o prenúncio de um desastre.
Digo isso sem rodeios e sem medo das palavras: a guerra contra o Irã será o Vietnã de Trump. Um conflito longo, corrosivo, impopular e economicamente insustentável. Um erro histórico capaz de devastar economias, incendiar o Oriente Médio, empurrar o mundo para uma crise energética global e enterrar de vez qualquer pretensão de legado positivo do atual presidente norte-americano.
Trump não está flertando com a guerra porque o Irã represente uma ameaça imediata aos Estados Unidos. Ele flerta com a guerra porque construiu sua narrativa política em torno da força, da intimidação e da ideia infantil de que problemas complexos se resolvem com demonstrações musculares. Ao se cercar de falcões em Washington, ao ouvir Benjamin Netanyahu mais do que qualquer diplomata sério, e ao tratar o Oriente Médio como um tabuleiro de reality show geopolítico, Trump está cavando sua própria armadilha.
E o Irã não é o Iraque de 2003. Não é a Líbia de 2011. Não é o Afeganistão dos anos 2000. O Irã é uma civilização-estado com memória histórica profunda, estrutura militar voltada à dissuasão, capacidade de guerra assimétrica altamente desenvolvida e alianças regionais reais — no Iraque, no Iêmen, no Líbano e além. Atacá-lo não será uma demonstração de força. Será um convite ao caos. Um cemitério de reputações. Um ralo trilionário de recursos norte-americanos. Exatamente como foi o Vietnã.
O cenário atual: um presidente encurralado pela própria bravata
Trump chegou batendo no peito, como sempre. Deslocou porta-aviões, bombardeiros estratégicos e navios de guerra para a região. Fez ameaças públicas. Apostou na encenação da força absoluta. O problema é que esse teatro o encurralou. Agora, ele tem apenas duas opções — ambas ruins.
Ou recua, desmoralizando sua própria retórica belicista e expondo o vazio de suas ameaças, ou ataca, desencadeando um conflito de consequências imprevisíveis e potencialmente catastróficas. Essa é a dinâmica clássica das escaladas fora de controle. Trump acreditou que poderia intimidar Teerã como intimida parceiros comerciais. Errou feio.
A guerra contra o Irã será o Vietnã de Trump porque ele subestimou brutalmente o adversário. Apostou que o medo bastaria para forçar uma capitulação. Não bastou. Nunca bastaria.
O governo iraniano foi cristalino. Por meio de seus canais oficiais, do discurso de seu ministro das Relações Exteriores e da movimentação concreta de suas forças armadas, deixou claro que não existe ataque simbólico aceitável. Qualquer violação da soberania iraniana será tratada como ato de guerra total. Sem teatrinho. Sem negociação posterior sob chantagem.
A mensagem enviada a Washington é simples e brutal: se os Estados Unidos atacarem, a resposta não ficará restrita a uma base isolada ou a um gesto protocolar. Ela atingirá interesses econômicos, militares e estratégicos norte-americanos em todo o Golfo Pérsico. Trump, acostumado a impor condições, se depara com um Estado que não negocia sua soberania.
A resposta iraniana: por que será calculada, fria e devastadora
Falo isso com convicção, não por torcida, mas por análise. A resposta iraniana não será emocional nem desorganizada. Será estratégica, calibrada e orientada a infligir dor real onde os Estados Unidos são mais vulneráveis: na economia e na estabilidade energética global.
O Irã sabe que não precisa derrotar militarmente os EUA em campo aberto para vencer politicamente. Precisa tornar a guerra cara demais, longa demais e impopular demais. Foi assim no Vietnã. Foi assim no Afeganistão. Será assim novamente.
Teerã tem capacidade concreta de fechar o Estreito de Ormuz, interrompendo o fluxo de petróleo e gás. Tem meios de atingir infraestruturas energéticas na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos. Seus aliados no Iêmen podem paralisar o Mar Vermelho. Grupos aliados no Iraque podem atacar interesses norte-americanos remanescentes. Nada disso é retórico. Tudo isso já foi testado, ensaiado e demonstrado.
O impacto seria imediato. O preço do petróleo dispararia. Cadeias de suprimento entrariam em colapso. A inflação explodiria. E aqui está a ironia que Trump parece incapaz de compreender: mesmo sendo hoje um grande produtor de energia, os Estados Unidos não estão imunes. Suas petrolíferas podem lucrar, mas a economia real — fábricas, transportes, famílias — seria esmagada.
Gasolina a preços absurdos. Desemprego. Recessão. Trump seria responsabilizado. Seus próprios eleitores, especialmente a base MAGA, sentiriam primeiro. A guerra contra o Irã será o Vietnã de Trump porque ela implode o apoio interno antes mesmo de produzir qualquer resultado externo.
O resultado? Um choque de oferta que faria o preço do petróleo disparar para níveis estratosféricos. E aqui está a ironia cruel — e profundamente reveladora do cinismo dessa aventura militar: mesmo sendo hoje um exportador líquido de energia, os Estados Unidos não estão imunes. Nunca estiveram. Suas grandes corporações petrolíferas podem até comemorar lucros recordes, mas a economia real, aquela que sustenta fábricas, caminhoneiros, pequenos negócios e famílias comuns, seria esmagada.
A inflação explodiria. As cadeias globais de suprimentos, já frágeis, entrariam em colapso. A recuperação econômica pós-pandemia, que mal se sustenta em pé, simplesmente se desintegraria. Não falo aqui de teoria abstrata. Falo de prateleiras vazias, demissões em massa, crédito travado e desespero social. Trump, que busca desesperadamente a reeleição em um país rachado ao meio, seria inevitavelmente responsabilizado por essa catástrofe econômica.
E aqui está o ponto que seus estrategistas parecem ignorar: seus próprios apoiadores seriam os primeiros a sentir o impacto. Os mesmos que hoje o seguem fielmente, que repetem slogans e acreditam na retórica da força, seriam os primeiros a pagar gasolina a dez dólares o galão, a perder empregos, a ver pequenas cidades industriais entrarem em colapso. É assim que impérios tropeçam: não no campo de batalha distante, mas no estômago vazio da própria população.
A falácia do “ataque limitado” e a lógica da guerra total
A ideia de um “ataque de nariz sangrando” — um bombardeio cirúrgico seguido de uma oferta hipócrita de paz — é uma fantasia perigosa, típica de quem nunca entendeu de fato como guerras começam, se espalham e saem do controle. Essa fantasia nasce de uma arrogância profundamente americana: a crença de que se pode apertar botões, lançar mísseis, matar à distância e ainda assim controlar todas as consequências.
A história recente deveria servir de alerta, mas Washington insiste em não aprender. Iraque, Líbia, Síria. Todas começaram como intervenções “limitadas”. Todas se transformaram em décadas de caos, insurgência, terrorismo, colapso estatal e trilhões de dólares desperdiçados. Nenhuma produziu estabilidade. Nenhuma trouxe vitória estratégica real.
Para o Irã, um ataque — por menor que seja — não é um incidente isolado. É percebido como a continuação de uma guerra longa e suja, que inclui assassinatos de cientistas iranianos, sabotagens contra instalações nucleares, sanções econômicas deliberadamente brutais e, mais recentemente, o incentivo aberto a distúrbios internos com participação estrangeira comprovada.
Do ponto de vista iraniano, isso não é contenção. É uma campanha sistemática para enfraquecer, fragmentar e, se possível, “balcanizar” o país — exatamente como foi feito com a Síria. Ignorar essa leitura é não entender absolutamente nada da lógica estratégica de Teerã.
Por isso, a retaliação iraniana não será emocional nem improvisada. Ela será pensada para encerrar de vez essa estratégia de “morte por mil cortes”. A mensagem será simples, brutal e definitiva: qualquer agressão será tratada como uma ameaça existencial. O custo imposto aos agressores será alto demais para ser sustentado politicamente.
É aqui que nasce o Vietnã moderno de Trump. Um adversário determinado, lutando em seu próprio terreno geográfico, cultural e estratégico, utilizando táticas assimétricas capazes de neutralizar a superioridade tecnológica convencional dos Estados Unidos. A guerra contra o Irã será o Vietnã de Trump porque ele não conseguirá definir o que é vitória — e muito menos como sair do conflito.
Os aliados regionais: uma cadeira musical perigosa
Outro elemento que condena essa aventura militar é a postura cada vez mais vacilante dos aliados regionais dos Estados Unidos. Arábia Saudita, Qatar, Turquia e até o Azerbaijão — países que em outros momentos apoiaram ações hostis contra o Irã — agora demonstram nervosismo visível. Não é altruísmo. É instinto de sobrevivência.
A Arábia Saudita já sinalizou que não permitiria o uso de seu espaço aéreo para um ataque. E não o faz por pacifismo, mas por cálculo frio: sabe que seria um dos primeiros alvos de uma retaliação iraniana. Suas refinarias, seus terminais, suas cidades-vitrine estão completamente expostas.
Esses regimes entendem algo que Trump parece se recusar a aceitar: uma guerra contra o Irã não ficaria confinada. Suas economias dependem do petróleo que o Irã pode paralisar. Suas infraestruturas luxuosas são vulneráveis a mísseis e drones. Eles sabem que sua segurança, historicamente atrelada à proteção norte-americana, agora os coloca diretamente na linha de fogo de um vizinho poderoso, ferido e preparado.
Essa ausência de apoio unânime enfraquece dramaticamente a posição de Trump. Ele se aproxima da guerra já isolado, já desconfiado, já sustentado mais por bravata do que por coalizões reais.
A paralisia israelense e o sacrifício americano
É impossível compreender essa crise sem falar de Israel. As evidências são abundantes: o governo de Benjamin Netanyahu pressionou intensamente por um confronto militar direto entre Estados Unidos e Irã. Mas há um detalhe fundamental que raramente é dito com clareza: Israel não quer lutar essa guerra. Quer que os americanos lutem por ele.
O objetivo é simples e cínico: que Washington faça o trabalho sujo, derrame sangue, gaste trilhões, destrua sua própria economia e carregue o custo político da guerra, enquanto Israel observa à distância e colhe os benefícios estratégicos de um Irã enfraquecido.
A chamada “guerra de 12 dias”, um conflito não declarado de alta intensidade, expôs limitações sérias das capacidades israelenses diante da resposta iraniana. Teerã aprendeu, se adaptou e fortaleceu suas defesas. Israel sabe que, em um conflito aberto, seria alvo de milhares de mísseis. Sabe que sua vantagem militar qualitativa não é mais absoluta.
Por isso, prefere empurrar Trump para a linha de frente. Cercado por assessores e parlamentares profundamente alinhados aos interesses israelenses, Trump corre o risco de sacrificar os próprios interesses nacionais dos Estados Unidos em nome de um aliado que não pretende compartilhar os riscos. Essa dinâmica perversa é mais um tijolo na construção do Vietnã de Trump: uma guerra travada por interesses alheios, com objetivos nebulosos e um custo pago exclusivamente pelo povo americano.
A única saída racional: a retirada disfarçada de vitória
Diante desse cenário, não há múltiplas opções. Há apenas uma que não leve ao desastre absoluto: a retirada. Não uma retirada honesta — isso Trump jamais faria —, mas uma retirada embalada como vitória, como espetáculo narrativo, como mais uma encenação de força que esconde um recuo estratégico.
Trump domina essa arte. Já fez isso antes. No Iêmen, após uma campanha fracassada. Em acordos comerciais inflados por marketing. Em confrontos diplomáticos onde a retórica foi muito maior que os resultados. Ele ameaça, ruge, cria tensão máxima — e depois recua, vendendo o recuo como triunfo. É o único caminho que lhe resta.
Os iranianos sabem disso. E, ao contrário do que pinta a propaganda ocidental, são pragmáticos. Sempre deixaram claro que aceitam diplomacia, mas não sob chantagem militar. Não negociam sob mísseis apontados, não abrem mão de soberania, não aceitam desmantelar sua capacidade de defesa nem abandonar seus aliados regionais. Ainda assim, podem permitir que Trump declare uma “vitória” vazia, simbólica, desde que as tropas se afastem e as ameaças imediatas cessem.
Qualquer outro caminho — especialmente a ideia delirante de “lançar algumas bombas para salvar a credibilidade” — será interpretado corretamente como um ato de guerra total. A resposta iraniana não será simbólica, nem proporcional, nem controlável. Será imediata, dura e estrategicamente pensada para tirar dos Estados Unidos exatamente aquilo que eles mais valorizam: controle, previsibilidade e narrativa.
É nesse ponto que a guerra contra o Irã se tornaria, definitivamente, o Vietnã de Trump. Ele perderia o controle da escalada, do campo de batalha, da economia e, por fim, do próprio destino político.
Conclusão: um ponto de inflexão histórico
Estamos diante de um precipício histórico. As decisões tomadas nos próximos dias ou semanas não definirão apenas o futuro do Oriente Médio, mas o rumo do poder norte-americano no século XXI. Atacar o Irã seria um erro estratégico de proporções monumentais, daqueles que não se apagam com discursos nem se corrigem com eleições.
A guerra contra o Irã será o Vietnã de Trump porque é uma guerra que ele não pode vencer, que a economia americana não pode sustentar e que o povo americano não apoiará quando os custos reais se tornarem impossíveis de esconder. Será um ralo de recursos, um gerador de instabilidade global e o epitáfio de uma presidência marcada mais pelo caos do que pela estratégia.
É preciso dizer isso sem rodeios: o Irã não é o Talibã dos anos 2000, nem o Iraque de 1991. É uma civilização-Estado milenar, com profunda resiliência social, capacidade sofisticada de guerra assimétrica e disposição real de lutar por sua existência. Atacá-lo não é um “reset” político. É assinar a certidão de um desastre anunciado.
A única esperança — absurda, paradoxal e profundamente cínica — reside na capacidade de Trump de fazer aquilo que ele já fez tantas vezes: ameaçar, inflar o peito, encenar força… e depois recuar, declarando vitória. Que essa hipocrisia calculada prevaleça sobre a insanidade estratégica.
Porque, se o primeiro míssil for lançado, o mundo não estará apenas entrando em mais uma guerra. Estará atravessando um ponto sem retorno. E sair dessa crise será muito, muito mais difícil do que alguns homens em Washington parecem dispostos a admitir.
Renato Globol

