Pular para o conteúdo

Rota 001: TRUMP BOMBARDEIA CARACAS

Última atualização em 3 de janeiro de 2026 Jornalista RenatoGlobol

Rota 001: O Ruído, o Silêncio e o Caminho de Volta para Casa
Trump pirata

A primeira bomba que você ouve nunca é a da notícia. É a que detona dentro de você.

O telefone vibrou com a insistência de um alarme às seis da manhã de um sábado. A tela, um mosaico de pânico condensado em manchetes: “TRUMP BOMBARDEIA CARACAS”. “MADURO CAPTURADO”. “GUERRA NAS AMÉRICAS”. Por um instante suspenso no tempo, o mundo real – a xícara de café prestes a ser feita, a luz suave da manhã entrando pela janela – dissolveu-se. Foi substituído por uma realidade paralela, urgente e catastrófica, injetada diretamente no centro do seu sistema nervoso por um algoritmo. A sensação não foi de medo, nem de raiva. Foi de perplexidade absoluta. Um véu de incredulidade, tão denso quanto a fumaça negra que logo começaria a circular nos vídeos, desceu sobre tudo.

Esta é a paisagem inicial dos nossos escombros. Não são feitos primeiro de concreto e aço, mas de dopamina e distorção. Vivemos em “tempos estranhos”, como bem anuncia este Jornal, não porque o mundo seja mais violento – a História é um rio de sangue –, mas porque somos forçados a habitar, simultaneamente, o aconchego do nosso lar e os campos de batalha mais distantes, sem pedir licença. A guerra não vem mais pelo rádio, com a voz grave de um locutor. Ela irrompe no bolso do seu pijama, competindo pela sua atenção com memes de gatos e anúncios de tênis. O primeiro abalo sísmico do novo dia não é geológico; é informativo. E sua escala Richter é medida em engajamento.

Sejam as explosões em Caracas reais ou um exercício febril de um futuro próximo, o mecanismo é o mesmo. Somos atingidos por um evento sem contexto, sem transição, sem aviso. A pergunta que ecoa, antes mesmo de “o que aconteceu?”, é: em que mundo eu acordei? E, mais crucial: como se navega em um terreno onde o chão parece desaparecer a cada notificação?


Análise do Terreno: Vasculhando os Detritos da Narrativa

O navegador de escombros não se apressa. Ele sabe que a poeira da primeira explosão é a que mais cega. Enquanto o mundo digital se enche de certezas gritantes – “É GUERRA!”, “É FAKE NEWS!”, “É A TERCEIRA GUERRA MUNDIAL!” –, nossa primeira tarefa é a mais contra intuitiva: ficar em silêncio. E começar a triagem.

O que temos, de fato, nas mãos? Uma série de relatos. Vídeos granulados de céus noturnos iluminados por clarões. A declaração triunfante de um homem em uma rede social que é, por definição, um palco para performances de força. A reação previsível e furiosa de um regime acuado. E, é claro, a reação à reação: o presidente colombiano Gustavo Petro, eterno crítico de todos os lados, clamando por reuniões de emergência da ONU. É um teatro global onde todos os atores falam seus roteiros pré-escritos antes mesmo do cenário estar totalmente armado.

E no centro do pandemônio, como um palhaço laranja a comandar um circo de horrores geopolíticos, está Donald Trump. Seu papel neste drama absurdo vai além do caótico: ele se reinventou como um pirata moderno, cuja frota não assalta galeões, mas intercepta e sequestra navios petroleiros alheios em alto-mar, proclamando o saque como um triunfo do “America First”. As leis marítimas e a soberania das nações tornam-se piadas ruins diante de seus tuítes-arpão, que transformam o comércio global num mar de anarquia onde só sua bandeira – ou melhor, sua marca – impera. Cada navio desviado é um ato performático de pilhagem, um espetáculo para sua base, e uma demonstração de que, em seu carnaval de arrogância, a ordem internacional não passa de um convite para ser saqueada.

Aqui, o humor ácido não é um luxo; é uma ferramenta de sobrevivência. É ele que nos permite observar a coreografia do absurdo sem ser sugado por sua gravidade. Podemos rir, com amargura, da linguagem burocrática usada para descrever o horror: “interdição do espaço aéreo devido a riscos à segurança de voo associados à atividade militar em curso”. Soa como um aviso para atraso num aeroporto, não o preâmbulo de um bombardeio. Podemos ironizar a espetacularização do conflito, onde cada lado precisa produzir, em tempo real, imagens mais impactantes e narrativas mais viróticas do que o adversário. A guerra, outrora um assunto de estado-maior e diplomatas, virou content.

Mas a triagem séria começa com perguntas simples, porém negligenciadas:

  1. Quem ganha com este ruído? Quem mobiliza sua base, justifica orçamentos bilionários, desvia a atenção de crises domésticas ou solidifica seu papel de vítima heróica quando esse espetáculo é encenado?

  2. O que está sendo vendido junto com a notícia? O medo é o melhor clickbait do mundo. Ele vende anúncios, assinaturas premium de jornais, e a ideia de que você precisa ficar grudado na tela para “não perder nada”.

  3. Onde está a humanidade na equação? Enquanto discutimos geopolítica, há corpos em algum lugar? Há famílias se escondendo? Há uma pessoa, com um nome e uma história, por trás de cada “baixa” ou “alvo militar de alto valor”?

Essas perguntas não buscam respostas fáceis. Elas buscam restaurar a complexidade onde a narrativa aposta na simplificação. Elas são o antídoto contra o veneno do maniqueísmo. O verdadeiro escombro a ser removido não é a notícia em si – real ou fictícia –, mas a nossa predisposição a sermos engolidos por ela, sem processo, sem filtro, sem pausa.


Traçando uma Rota: Do Pânico ao Ponto de Apoio

Então, como se constrói um caminho sobre este terreno instável? Como encontrar um ponto de apoio quando todas as certezas tremem? A rota não leva a um lugar de respostas definitivas sobre a Venezuela ou sobre Trump. Ela leva de volta para dentro de você. Para os valores que, em meio ao caos, permanecem como alicerces inabaláveis: humanidade, solidariedade e o interesse no bem coletivo.

Num dia como o descrito pela notícia, esses princípios deixam de ser abstratos. Eles se traduzem em ações concretas e decididamente pouco espetaculares:

1. Escolher a Escala Humana. Antes de mergulhar nas análises geopolíticas, pergunte-se: o que isso muda na vida da minha vizinha? No trabalho do meu amigo? No medo das crianças que, em algum lugar, ouvem o estrondo? A solidariedade começa na capacidade de imaginar o outro, não como um número num balanço de guerra, mas como um ser de carne e osso com uma xícara de café matinal interrompida. É um ato de resistência contra a desumanização que toda narrativa de conflito promove.

2. Cultivar o Silêncio Ativo. Buscar informações confiáveis não significa consumir 18 horas de cobertura ao vivo. Significa, muitas vezes, desligar. O pânico se alimenta da saturação. A clareza nasce do espaço vazio. Reserve um momento – mesmo que sejam cinco minutos – de silêncio absoluto, longe de todas as telas. Deixe a poeira assentar dentro de você antes de decidir o que pensar.

3. Praticar a “Arqueologia da Notícia”. Em vez de compartilhar no impulso, cave. Qual é a fonte primária? Há um comunicado oficial, um documento? Ou estamos todos reagindo à reação de alguém que reagiu a um tweet? Procure o fato por baixo das camadas de opinião. Este é o trabalho braçal do navegador de escombros: remover o entulho da retórica para encontrar, se houver, a pedra angular do acontecido.

4. Reconectar-se com o “Aqui”. Em um mundo que implora para que você se preocupe com tudo, o ato mais radical é se importar profundamente com algo próximo. A “polis” – nossa comunidade – não é uma abstração. É a pracinha, o comércio local, a conversa olho no olho. O bem coletivo se constrói na escala em que o rosto do outro ainda é visível. O que você pode fazer hoje para melhorar o pedaço de mundo que seus pés tocam?


Chamada para a Próxima Curva no Caminho

Este texto, esta primeira Rota, não é uma conclusão. É um ponto de partida. Um convite para uma travessia diferente através dos dias que se seguirão – sejam eles de catástrofe real ou do mal-estar persistente de nossa era.

Termino com duas propostas, uma reflexiva e outra sensorial, que talvez sejam faces da mesma moeda:

A primeira é uma pergunta para você carregar consigo: O que você vai construir hoje sobre os escombros do seu silêncio? Que pequeno, ínfimo, mas deliberado ato de criação – uma palavra amável, um trabalho bem feito, um momento de atenção plena ao mundo à sua volta – você vai erguer como um dique contra o mar de ruído?

A segunda é um convite a uma experiência. Coloque seus fones de ouvido. Busque a trilha “Radicalizando a Democracia”, da coletânea Jazz Galáctico. Deixe que os primeiros acordes do contrabaixo, soltos no espaço da melodia, preencham o silêncio que você escolheu cultivar. Observe como o piano não entra em pânico. Ele explora. Improvisa dentro de uma estrutura. Encontra beleza na dissonância e calma no ritmo complexo. A música não oferece respostas sobre a Venezuela. Ela oferece um modelo de funcionamento para a mente em tempos de caos: escuta atenta, adaptação criativa, e a coragem de criar uma linha melódica própria em meio ao barulho do mundo.

O “Mapa dos Escombros” não promete rotas fáceis nem destinos seguros. Ele se propõe a ser uma bússola que, em vez de apontar para o norte magnético da histeria coletiva, aponta sempre de volta para três coordenadas essenciais: o seu centro de gravidade emocional, a sua capacidade crítica e o seu compromisso inabalável com o humano, o demasiado humano, que resiste em você e no outro.

A primeira explosão já aconteceu. A pergunta que resta é: para onde você caminha agora?

Renato Globol é curador do Jornal Ambiente e criador do projeto Jazz Galáctico. Escreve semanalmente a coluna “Mapa dos Escombros”.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

 

Chave pix: pix@globol.com.br

Clique aqui e doe qualquer valor
🌍Seu Apoio, Nossa Energia🌍

Caros leitores,

O Jornal Ambiente é uma voz dedicada à sustentabilidade e à qualidade da informação. Sua generosidade e a parceria com a classe trabalhadora nos impulsionam.

  • Doações via Pix para “pix@globol.com.br” fortalecem nosso movimento em prol de um planeta mais verde e próspero.
  • Como assinante Premium, você terá acesso a conteúdo exclusivo e interações com nossa equipe.
  • Outra maneira valiosa de nos apoiar é adquirir produtos e serviços de nossos anunciantes, compartilhando nossos valores ambientais. Cada transação fortalece nosso jornal e contribui para a continuidade de nosso trabalho. Juntos, moldamos um futuro sustentável para as gerações vindouras.

pix@globol.com.br

 
 
RenatoGlobol RenatoGlobol