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Tecnofeudalismo o que é isso?

Última atualização em 9 de dezembro de 2024 Jornalista RenatoGlobol

Você ainda é dono das suas coisas? Entenda o Tecnofeudalismo.

O crepúsculo da posse na era dos senhores de nuvem

tecnofeudalismo social democracia
Economista Yanis Varoufakis

Lembro-me com uma clareza quase tátil do peso de um disco de vinil nas mãos ou da textura do papel de um livro comprado em uma pequena livraria de bairro em Porto Alegre ou em Salvador na Bahia. Havia ali um pacto de propriedade: eu pagava, o objeto era meu, e o mercado cumpria sua função básica de troca. Hoje, ao caminhar pelas ruas de Campinas – SP ou observar o fluxo financeiro que atravessa as fronteiras invisíveis da rede, percebo que esse mundo morreu. O que vivemos agora não é uma evolução do capitalismo que aprendemos nos bancos escolares, mas um retrocesso sofisticado e brutal. Estamos mergulhados no tecnofeudalismo, um sistema onde a figura do capitalista inovador foi substituída pelo senhor feudal da nuvem, e onde o mercado, outrora o centro da vida econômica, tornou-se apenas um apêndice de algoritmos proprietários.

O economista grego Yanis Varoufakis, com quem compartilho a inquietação sobre os rumos da nossa civilização, diagnosticou com precisão: o lucro foi substituído pela renda. No capitalismo clássico, empresas como a Ford ou a Volkswagen lucravam produzindo bens. No tecnofeudalismo, gigantes como a Amazon de Jeff Bezos ou a Alphabet (Google) não precisam necessariamente produzir nada; elas são donas da infraestrutura por onde a vida passa. Elas são os novos feudos. Se você quer vender um produto, precisa pagar o pedágio à Amazon. Se quer ser encontrado, precisa ajoelhar-se diante do Google. A “propriedade” tornou-se uma ilusão temporária, um serviço de assinatura que pode ser revogado ao bel-prazer de um termo de uso que ninguém lê, mas que todos somos obrigados a assinar.

A metamorfose do lucro em renda e a morte do mercado livre

Para entender por que o tecnofeudalismo é uma ameaça existencial à nossa autonomia, precisamos olhar para além da conveniência de um clique. No antigo regime capitalista, as empresas competiam em mercados. Havia, teoricamente, uma vitrine onde o consumidor escolhia. Hoje, quando você entra na plataforma da Meta ou utiliza o motor de busca do Google, você não está em um mercado; você está dentro de um território privado. O algoritmo não é um facilitador neutro, mas um suserano digital que decide o que você vê, o que você deseja e, por consequência, o que você consome.

Esta transição da produção de bens para a extração de renda de nuvem é o que define o nosso tempo. No tecnofeudalismo, o capital de nuvem funciona como a terra na Idade Média. Os servos daquela época trabalhavam no campo e entregavam uma parte da colheita ao senhor. Hoje, cada vez que postamos uma foto, realizamos uma busca ou compramos um item via aplicativo, estamos trabalhando de graça para aumentar o valor do feudo digital. Nós somos os produtores do conteúdo, os fornecedores dos dados e, simultaneamente, os arrendatários que pagam para habitar esse espaço virtual. É uma pilhagem sistemática operada por linhas de código, onde a soberania nacional de países como o Brasil é atropelada pela força transnacional dessas corporações que não respondem a governos, mas a acionistas sedentos por uma renda que não gera empregos reais na economia de base.

A arquitetura da exploração nas entranhas do Vale do Silício

Economista Yanis Varoufakis, concede entrevista

Não há como ser neutro diante da destruição do tecido social promovida por essa nova ordem. O tecnofeudalismo opera através de uma “austeridade invisível”. Enquanto as fábricas do século XX, apesar de todas as suas contradições e explorações, reinvestiam parte do capital em infraestrutura local e salários que circulavam na comunidade, as Big Techs operam em um vácuo de responsabilidade. O dinheiro que você gasta em uma assinatura de streaming ou em uma taxa de entrega de aplicativo não fica na sua cidade; ele voa instantaneamente para paraísos fiscais ou para os cofres de Palo Alto, deixando para trás apenas a precarização do trabalho e o esvaziamento do comércio local.

Cidades como San Francisco, outrora berço da contracultura, transformaram-se em distopias de desigualdade, onde engenheiros de software milionários caminham ao lado de uma massa de despossuídos. Esse é o espelho do futuro que o tecnofeudalismo reserva para o Sul Global se não houver uma reação contundente. No Jornal Ambiente, rejeitamos a ideia de que o progresso tecnológico deve necessariamente vir acompanhado da erosão dos direitos humanos e da soberania econômica. Apoiar o tecnofeudalismo sob o manto da “modernização” é aceitar a condição de colônia digital. É preciso coragem para dizer que plataformas como Uber e iFood não são empresas de tecnologia, mas gestoras de uma massa de trabalhadores sem direitos, operando sob uma lógica de extração que faria inveja aos barões do café do século XIX.

O algoritmo como carrasco da vontade individual e coletiva

A perda da propriedade física é apenas a ponta do iceberg. O que o tecnofeudalismo realmente confisca é a nossa capacidade de escolha autônoma. No momento em que o algoritmo molda o desejo, a política morre. A democracia exige cidadãos capazes de refletir e divergir; o feudo digital exige usuários que apenas reajam aos estímulos programados. Quando a Amazon sugere um livro, ela não está exercendo uma função comercial, ela está exercendo um poder político de silenciamento de vozes que não se encaixam na métrica de rentabilidade da nuvem.

Este sistema é intrinsecamente hostil aos mais vulneráveis. O pequeno comerciante de uma cidade do interior de Minas Gerais ou do Nordeste brasileiro, que antes dependia da sua reputação e do fluxo local, agora é forçado a pagar percentuais obscenos para aparecer em plataformas de entrega ou redes sociais. Ele não é mais um empresário; ele é um vassalo digital. Se ele discorda das taxas, ele desaparece do mapa. Se ele questiona a lógica, o algoritmo o enterra na décima página de busca. O tecnofeudalismo não tolera a dissidência porque sua estrutura é baseada na totalidade do controle sobre a “estrada” digital.

A resistência necessária contra o sequestro do futuro

tecnofeudalismo a morte do capitalismo
Economista Yanis Varoufakis

Não podemos aceitar passivamente que a nossa existência seja reduzida a um conjunto de pontos de dados a serem minerados. A luta contra o tecnofeudalismo é a grande batalha política do nosso século. Ela passa pela defesa de infraestruturas públicas digitais, pela tributação pesada da renda de nuvem e pela retomada da noção de bem comum. Se não formos donos das ferramentas que utilizamos para nos comunicar, trabalhar e viver, não seremos donos de nada, nem de nós mesmos.

É vergonhoso ver governos ao redor do mundo, incluindo muitas vezes o brasileiro, curvando-se aos interesses de corporações como a Apple ou a Microsoft em troca de promessas vazias de investimento. O compromisso do jornalismo sério deve ser com os que estão na ponta da exploração: o entregador de aplicativo que pedala doze horas por dia, o pequeno produtor que vê seu lucro ser devorado por taxas de plataforma e o cidadão comum que percebe, com angústia, que sua privacidade e sua propriedade estão se esvaindo. O tecnofeudalismo é o triunfo da renda sobre o trabalho, do algoritmo sobre a vontade e do feudo sobre a república.

Rompendo as correntes digitais para retomar a dignidade

Ao final deste relato de uma era em transformação, fica o alerta: a conveniência é a droga que nos mantém dóceis enquanto as cercas do feudo são erguidas. O capitalismo, com todos os seus defeitos, ainda previa uma arena de troca e a possibilidade de acumulação de bens tangíveis por parte do trabalhador. O tecnofeudalismo retira até essa esperança, oferecendo em troca o brilho efêmero de uma tela e a servidão de uma vida por assinatura.

Nós, do Jornal Ambiente, tomamos o partido da soberania popular e da dignidade humana. Rejeitamos o otimismo cego do Vale do Silício e a cumplicidade das elites financeiras que lucram com a desestruturação do Estado-nação. É preciso desmantelar os monopólios de nuvem, é preciso devolver às pessoas a propriedade sobre seus dados e suas vidas. O tecnofeudalismo só prospera na sombra da nossa desatenção. Que este texto seja uma centelha de indignação em um mar de algoritmos, um lembrete de que, enquanto houver consciência e disposição para o embate intelectual, o futuro não estará totalmente vendido para os senhores da nuvem. A nossa liberdade não pode ser um serviço de streaming com data para expirar.


 

 

Por: Renato Mendes de Andrade – Jornalista – MTB 72.493/SP

 


 

 

 

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Technofeudalism: What Killed Capitalism

Edição Inglês | por Yanis Varoufakis | 13 fev. 2024

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