Última atualização em 9 de dezembro de 2024 Jornalista RenatoGlobol
A farsa do mindset e a engenharia da miséria: por que pensar positivo não paga boletos

Sabe aquela sensação de que tem algo muito errado quando você abre o Instagram e vê um sujeito, geralmente de terno ajustado ou em uma praia paradisíaca, dizendo que “o seu problema é a sua mente”? Pois é. Eu sinto isso todo santo dia. Parece que virou moda culpar o indivíduo por tragédias que são, na verdade, projetos de governo e de mercado. A pergunta que não quer calar — e que muita gente evita fazer por medo de parecer “pessimista” — é: mudar a mentalidade traz mesmo prosperidade ou é só o golpe mais bem estruturado do século XXI? Para nós, aqui do Jornal Ambiente, a resposta passa longe dos clichês de livraria de aeroporto. A farsa do mindset não é apenas um equívoco teórico; é uma ferramenta política de domesticação da classe trabalhadora.
No último domingo, o professor Flávio Ricardo Vassoler trouxe uma lufada de realidade em uma aula ao vivo que tocou na ferida. Ele não estava ali pra vender curso de como ficar rico em sete dias, mas para dissecar como o turbocapitalismo sequestrou a nossa subjetividade. É bizarro pensar que, em um país como o Brasil, onde o salário mínimo mal cobre a cesta básica em cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro, ainda existam pessoas pregando que o sucesso depende exclusivamente de uma “chave” que você vira na cabeça. Eu olho para o lado e vejo o entregador de aplicativo pedalando 12 horas por dia, debaixo de sol e chuva, e me pergunto: será que falta “mindset de crescimento” para ele? Ou falta, na verdade, direito trabalhista, segurança alimentar e um Estado que não o trate como descartável?
A indústria do autogerenciamento e o sequestro da esperança
A gente precisa dar nome aos bois. Essa história de que “você é o seu próprio chefe” ou de que “o universo conspira a favor de quem pensa grande” não brotou do nada. Ela é a base da farsa do mindset alimentada por instituições que lucram com a precariedade. Quando figuras como os grandes gurus das finanças — cujos nomes infestam os anúncios do YouTube — pregam a resiliência absoluta, eles estão, na prática, dizendo para você não reclamar da exploração. É a transferência da responsabilidade: se a empresa em que você trabalha te paga uma miséria, a culpa não é do sistema de lucro desenfreado da corporação, mas da sua “mentalidade de escassez”.
Eu confesso que sinto uma indignação profunda ao ver como essa narrativa penetrou até nas comunidades mais pobres. A “teologia da prosperidade”, que antes ficava restrita a certos altares, agora se fundiu ao discurso do empreendedorismo de palco.
O resultado é trágico: o trabalhador que não prospera não se revolta contra o prefeito, contra o governador ou contra as taxas de juros abusivas do Banco Central; ele se revolta contra si mesmo. Ele entra em depressão porque acredita que “não vibrou na frequência certa”. Isso é cruel. É uma engenharia da miséria que utiliza a psicologia como arma de guerra contra quem já não tem nada.
Na minha visão, o que Vassoler expõe é o esqueleto desse monstro. O mindset de sucesso é o ópio moderno. Ele mantém o sujeito ocupado demais tentando “se melhorar” para perceber que o chão sob seus pés está sendo vendido. Enquanto você faz afirmações positivas no espelho, o Congresso Nacional vota medidas que retiram sua aposentadoria e as grandes corporações, como a Amazon ou as gigantes do agronegócio, seguem concentrando renda de forma obscena. É uma distração perfeita.
O mito da meritocracia em um tabuleiro viciado
Vamos falar de realidade nua e crua? A farsa do mindset se sustenta em um pilar podre chamado meritocracia. Eu queria muito acreditar que o esforço é a única variável do sucesso, mas a vida não é um filme de Hollywood. Se esforço desse dinheiro, as mulheres que limpam os escritórios da Avenida Faria Lima seriam bilionárias. Elas acordam às 4 da manhã, pegam três ônibus, cuidam da casa, dos filhos e trabalham até a exaustão. Alguém tem coragem de dizer que falta “mentalidade próspera” para elas?
O que o Jornal Ambiente defende é que a prosperidade é um fenômeno social, não individual. Quando eu olho para países com baixíssimos índices de pobreza, como a Noruega ou a Dinamarca, não vejo pessoas lendo mais livros de autoajuda do que os brasileiros. O que eu vejo é investimento pesado em educação pública, saúde universal e redes de proteção social. Aqui, a gente tenta resolver com “coach” o que deveria ser resolvido com política pública. É patético ver governos se esquivando de suas funções enquanto incentivam o “empreendedorismo de necessidade” — aquele onde o sujeito vira motorista de Uber ou vendedor de bolo de pote porque não tem emprego formal — como se isso fosse uma escolha de vida libertadora.
A verdade dói, mas precisa ser dita: a estrutura econômica brasileira foi desenhada para manter o privilégio de poucas famílias. Quando a elite fala em mudar o mindset, ela está querendo que você aceite a “uberização” da vida com um sorriso no rosto. É a ideia de que você deve ser um “colaborador” e não um funcionário com direitos. Pra mim, isso tem um nome: neofeudalismo. E a farsa do mindset é a ideologia que faz o servo acreditar que um dia será o senhor, desde que ele acorde às 5 da manhã e tome banho gelado.
O mercado da autoajuda como braço ideológico do capital
Se você entrar em qualquer grande livraria no centro de Porto Alegre ou de Curitiba, a seção de autoajuda é a maior. É um mercado que movimenta bilhões vendendo promessas vazias. E por que vende tanto? Porque a gente está desesperado. A gente vive em uma sociedade que nos adoece e depois nos vende o remédio — que, nesse caso, é um livro que diz que a cura está dentro de nós. É um ciclo perverso.
Eu já vi amigos próximos gastarem o que não tinham em cursos de imersão que prometiam “destravar a prosperidade”. Eles voltavam de lá eufóricos, gritando frases motivacionais, mas dois meses depois estavam mais endividados e frustrados do que antes. Por que? Porque a euforia do palco não paga o aluguel. A farsa do mindset ignora que vivemos em um mundo de matéria, de carne, de osso e de boletos. Ignora que o preço da gasolina sobe por causa de decisões na Petrobras e na geopolítica internacional, e não porque você está com pensamentos negativos.
O professor Vassoler acerta em cheio quando aponta que essa obsessão pelo individualismo destrói o sentido de coletividade. Se o sucesso é só meu, eu não preciso de sindicato, não preciso de associação de moradores, não preciso de partido político. Eu só preciso do meu fone de ouvido e do meu podcast de finanças. É assim que o poder ganha: dividindo a gente. Um povo que acredita em mindset é um povo que parou de lutar por direitos coletivos porque está ocupado demais tentando ser “a sua melhor versão”.
Educação e política: as únicas saídas reais
Se a mentalidade não é a chave, o que é então? No Jornal Ambiente, a gente não foge da raia. A resposta é política e educacional. Mas não essa educação voltada apenas para o mercado de trabalho, para ensinar o sujeito a ser um parafuso mais eficiente na engrenagem. Falo de educação crítica, aquela que o Paulo Freire defendia, que faz a gente entender o mundo para poder transformá-lo.
A verdadeira prosperidade de uma nação vem de políticas de redistribuição de renda, de taxação de grandes fortunas e de um Estado que garanta o básico para que ninguém comece a corrida cem metros atrás dos outros. É fácil falar em mindset positivo quando você nasceu em um bairro nobre, estudou em escola bilíngue e tem o “networking” do papai. Difícil é manter o mindset positivo quando falta o que comer ou quando você sabe que sua cor de pele ou seu CEP definem as chances de você ser parado pela polícia.
Nós precisamos parar de romantizar a resiliência do pobre. O pobre não deveria ter que ser resiliente o tempo todo; ele deveria ter o direito de ser comum, de ter segurança e de ter lazer. A farsa do mindset é uma tentativa de gourmetizar a sobrevivência. Eu rejeito isso veementemente. Rejeito a ideia de que o sofrimento é um mestre que nos prepara para a riqueza. O sofrimento, na maioria das vezes, só gera trauma e exaustão.
O que esperar do futuro se não quebrarmos esse ciclo?
Se a gente continuar comprando essa ideia de que a solução é individual, o futuro vai ser cada vez mais desigual. Imaginem um mundo onde o acesso a direitos básicos é condicionado à sua “performance” pessoal avaliada por algoritmos. Já estamos quase lá. A meritocracia de fachada, amparada pela farsa do mindset, está criando uma massa de trabalhadores frustrados, doentes e, pior, despolitizados.
Eu me pergunto: o que vamos dizer para as próximas gerações? Que elas não conseguiram comprar uma casa porque não meditaram o suficiente? Que a crise climática — que atinge primeiro as periferias de cidades como Recife ou Salvador — é fruto da nossa vibração negativa coletiva? É uma insanidade sem precedentes. A indignação é nosso direito e devemos exerçe-la. Passou da hora de entender que a economia não é uma força da natureza, mas uma construção humana que pode e deve ser alteradae vamos lutar para que a mudança veja.
Minha recomendação é simples, embora não seja fácil: feche os livros de autoajuda por um momento e abra os livros de história, de economia política e de sociologia. Converse com seus vizinhos. Organize-se. A prosperidade que vale a pena não é aquela que você alcança sozinho pisando nos outros ou se matando de trabalhar em três empregos informais. A prosperidade real é coletiva, é fruto de uma sociedade que valoriza o humano acima do lucro.
Conclusão: a vida não cabe em um post de motivação
Para encerrar, eu queria dizer que eu entendo quem cai nessa conversa. É sedutor. É reconfortante acreditar que a gente tem o controle total sobre o nosso destino em um mundo tão caótico. Mas a maturidade exige que a gente encare a realidade de frente. A farsa do mindset é o canto da sereia do neoliberalismo, tentando nos convencer de que somos os capitães da nossa alma enquanto o navio está sendo afundado propositalmente por quem comanda o porto.
Mudar a forma de ver o mundo é importante, sim. Ter uma atitude positiva ajuda a enfrentar o dia a dia, ninguém nega isso. Mas não vamos confundir postura mental com solução estrutural. O professor Vassoler nos deu o diagnóstico; cabe a nós agora buscarmos o tratamento, que passa longe dos palcos de coaching e muito perto das ruas, das urnas e das lutas sociais.
A verdadeira virada de chave acontece quando a gente percebe que o “eu” só prospera de verdade quando o “nós” está garantido. Fora disso, é apenas ilusão vendida a preço de ouro para quem já está pagando caro demais apenas para existir. E você? Vai continuar acreditando que o problema é a sua mente, ou vai começar a olhar para quem está segurando as rédeas da economia? É hora de acordar desse transe coletivo.
Gostou dessa análise ácida sobre o mercado da motivação? Eu posso expandir essa discussão para você: que tal se eu analisasse como a “uberização” do trabalho utiliza esses conceitos de mindset para mascarar a falta de direitos? Ou prefere que eu faça um levantamento histórico de como a teologia da prosperidade se infiltrou na política brasileira? É só pedir!

Por: Renato Mendes de Andrade – Jornalista – MTB 72.493/SP

