Última atualização em 30 de julho de 2025 Jornalista RenatoGlobol
O Salário Psicológico da Branquitude ou Como Votar Contra o Próprio Café da Manhã
Tem gente que acorda cedo, toma um café preto sem açúcar (porque o adoçante tá caro e a dignidade ficou na eleição passada), vai trabalhar por um salário que não paga nem o aluguel da dignidade — e mesmo assim acha que o problema da vida dela é a moça trans que conseguiu uma vaga na universidade.
Tem também quem vote em político milionário achando que um dia vai ser convidado pro churrasco da cobertura. Nunca vai. Mas acredita.
Isso, minha gente, tem nome: salário psicológico da branquitude. E não fui eu que inventei, foi um tal de W.E.B. Du Bois, sociólogo americano, que olhou pro povaréu branco dos EUA e percebeu que, embora fossem tão lascados quanto os negros na economia, ganhavam um “pagamento simbólico” só por serem brancos. Tipo um cartão fidelidade da elite: “Você não tem plano de saúde, mas parabéns! Não é negro.”
Funciona assim: o sujeito tá sem trabalho, sem saúde, sem futuro, mas tem uma coisa que ele acha que o diferencia dos outros: a cor da pele. E é nesse tal status imaginário que ele se agarra, como se fosse boia em alto-mar.
O problema — e aqui entra o lado tragicômico que um escritor best-seller adoraria escrever — é que essa boia tá cheia de furos. Mas o povo sopra, cola, joga fita crepe, reza e continua acreditando.
Lá nos Estados Unidos, por exemplo, o cidadão branco pobre vota no Trump achando que é o Batman. E o Trump, esperto, promete mundos e fundos — menos IPTU. Diz que vai proteger a “América branca”, que vai acabar com os “invasores”, que vai devolver os empregos, valorizar a família e o hambúrguer com queijo amarelo.
Promete tudo, menos dignidade. Porque isso é caro.
Aí o pobre coitado vota cheio de esperança. Mas depois vem a conta: o apoio social evapora, os preços sobem, os empregos não voltam, e o único resultado concreto é que agora tem uma nova lei proibindo drag queens de contarem histórias em bibliotecas.
Prioridades, né?
Mas ele não reclama. Porque o “outro” tá sendo punido. E isso, na cabeça dele, já vale a pena.
Veja bem: o sujeito abre mão de bolsa-alimentação, merenda do filho e medicamento controlado só pra ver o vizinho imigrante perder o auxílio-aluguel. É um masoquismo de revanche.
Parece loucura? É. Mas é política afetiva, meu caro. Votam pela punição, não pela solução.
E quando alguém tenta explicar que o problema não são os negros, os latinos, os gays ou os refugiados, mas sim os banqueiros, os bilionários e os donos das grandes corporações, eles não ouvem. Porque culpar os de cima exige coragem e leitura. Culpar os de baixo dá mais ibope e exige só um grupo de WhatsApp.
No Brasil, não é diferente.
A gente vê a classe média indo pra rua com camisa da CBF, panela na mão e o CPF vencido. Pedem “menos corrupção” e, no dia seguinte, votam em quem faz rachadinha com leite condensado.
Aqui o salário psicológico vem em outras moedas: “Pelo menos eu não sou nordestino.” “Pelo menos eu não vivo de auxílio.” “Pelo menos não sou petista.”
O “pelo menos” virou unidade de medida da autoestima nacional.
Só que no fim do mês, o boleto não aceita “pelo menos”. O aluguel não quer saber se você é contra a ideologia de gênero. O botijão não fica mais barato porque você acha que bandido bom é bandido morto.
E o mais curioso: quando tudo dá errado (e geralmente dá), eles não culpam quem prometeram acreditar. Culpam o Lula, o comunismo, o Enem, a Greta Thunberg, o beijo gay na novela e, se sobrar tempo, a mandioca.
Meu professor de Português, se vivo fosse, diria: “É o samba do eleitor doido.”
Tem gente que só quer ver o circo pegar fogo, mesmo sabendo que mora na barraca ao lado.
Mas por que isso acontece? Porque tem uma elite que sabe manipular. Que entende de narrativa. Que tem know-how em transformar miséria em espetáculo e ódio em plataforma eleitoral.
Esses elites não prometem melhorar a vida do povo. Eles prometem punir os “inimigos”. Dizem:
– “Eu não vou te dar escola, mas vou fechar a dos outros.”
– “Eu não vou te dar saúde, mas vou acabar com o SUS para aquele povo lá.”
– “Não vou aumentar teu salário, mas vou garantir que o vizinho que você não gosta continue ganhando menos.”
É como se dissesse: “Você não vai subir, mas eu garanto que ninguém mais suba.”
E tem quem aplauda de pé.
Isso, senhoras e senhores, é o salário psicológico da desigualdade. Uma moeda falsa que se troca por orgulho, enquanto se perde tudo o mais.
É trágico. É cômico. É real.
E sabe o que é pior? Funciona. Porque o sistema é treinado pra isso. E enquanto os pobres brigam entre si, os ricos brindam com vinho chileno de mil reais, rindo da nossa ignorância coletiva.
Mas há esperança, sim. Começa quando a gente para de cair nessa armadilha emocional, olha para o lado e percebe que o inimigo não tá no cortiço, nem na ocupação, nem na biqueira — o inimigo tá no camarote, sorrindo, enquanto a gente se mata pela arquibancada.
E você aí, leitor, se identificou ou ficou com raiva? Ótimo. Quer dizer que o texto mexeu.
Agora compartilha. Ou pelo menos pensa. Que já tá de bom tamanho.
✍️ Este texto é dedicado à memória do Hermeto meu amigo Gaúcho de Paulínia SP, com quem compartilhei conversas intensas, longas reflexões e bons drinks. Divergíamos em muitos pontos, mas no amor pela filosofia, pela conversa honesta e pela busca por sentido no mundo, éramos aliados. Ele faleceu, me disseram. E desde então, a ausência tem me feito companhia.
Fica então esse texto: não como homenagem, mas como continuação de uma conversa que, no fundo, nunca termina, e uma saudade que nem a filosofia explica.
