Pular para o conteúdo

Inteligência Artificial, medo e poder: o pânico tecnológico visto pela lente da história

Última atualização em 24 de janeiro de 2026 Jornalista RenatoGlobol

Quando o temor não nasce da máquina, mas da memória coletiva

O debate contemporâneo sobre os riscos da Inteligência Artificial, especialmente aquele que gira em torno da chamada Inteligência Artificial Geral (AGI), tem sido marcado por um tom quase apocalíptico. Cientistas respeitados, como Stuart Russell, alertam que a humanidade pode estar criando algo que, em algum momento, escapará completamente ao controle humano e colocará em risco a própria existência da espécie. O discurso é sério, bem articulado e revestido de autoridade científica. Ainda assim, ele merece ser observado com mais cuidado.

A pergunta que raramente é feita — e que talvez seja a mais importante — não é apenas “a IA pode se tornar perigosa?”, mas por que esse medo ganha tanta força agora? E mais: quem exatamente está com medo?

Quando observamos a história humana sem filtros ideológicos, percebemos que viver sob ameaça existencial nunca foi uma novidade para a maioria da humanidade. Povos inteiros foram dizimados, culturas apagadas, territórios roubados, corpos explorados até a exaustão. Escravidão, colonialismo, guerras industriais e genocídios não foram acidentes de percurso, mas estruturas organizadas de poder. Para bilhões de pessoas, o risco não era teórico, era cotidiano.

O pânico em torno da IA surge, portanto, num mundo que sempre conviveu com a destruição — mas que agora vê essa possibilidade tocar, ainda que simbolicamente, os centros tradicionais de poder.

 

A metáfora do gorila e o erro de apagar o criador

Um dos argumentos mais conhecidos de Stuart Russell é a analogia entre humanos e gorilas. Segundo ele, assim como os gorilas não tiveram escolha quando os humanos passaram a dominar o planeta, nós também poderíamos perder o controle ao criar uma inteligência superior à nossa. A metáfora é sedutora, mas profundamente problemática.

Ela falha porque compara dois fenômenos que não são equivalentes. Gorilas são seres biológicos, fruto de milhões de anos de evolução natural, dotados de instintos próprios e interesses autônomos. A Inteligência Artificial, por outro lado, não emerge da natureza. Ela é criada, treinada, financiada, ajustada e implantada por humanos, dentro de contextos econômicos, políticos e militares muito bem definidos.

Ao usar essa analogia, o discurso desloca a responsabilidade. Parece sugerir que a IA é um novo sujeito histórico independente, quando na realidade ela é um artefato humano, moldado por escolhas humanas. Não existe IA fora de servidores, contratos, códigos, objetivos e incentivos. E todos esses elementos têm donos.

O verdadeiro risco não está em sermos “menos inteligentes” do que uma máquina, mas em continuarmos delegando poder sem responsabilidade, como a história mostra que sempre fizemos.

Inteligência Artificial

Inteligência nunca foi sinônimo de poder absoluto

Outro ponto recorrente no discurso alarmista é a ideia de que a inteligência é o fator decisivo para dominar o mundo. A história, no entanto, contradiz essa simplificação. Povos altamente sofisticados intelectualmente foram subjugados por impérios que não eram necessariamente mais inteligentes, mas mais violentos, mais organizados militarmente ou simplesmente mais cruéis.

Africanos escravizados não eram menos inteligentes do que seus algozes. Povos indígenas não eram menos capazes do que os colonizadores europeus. Camponeses expulsos de suas terras na Revolução Industrial inglesa não eram intelectualmente inferiores às elites que os exploraram. O que faltava não era inteligência, mas poder material, proteção institucional e reconhecimento de humanidade.

Portanto, o medo de que uma IA “mais inteligente” automaticamente dominará a humanidade ignora um dado central: poder é uma relação social, não uma função matemática de capacidade cognitiva.

Inteligência Artificial

O verdadeiro toque de Midas: quando tudo vira lucro, inclusive o risco

Russell utiliza a metáfora do toque de Midas para criticar a ganância das empresas que desenvolvem IA, sugerindo que elas estão dispostas a correr riscos existenciais em nome do lucro. Aqui, curiosamente, ele se aproxima do cerne do problema, mas recua antes de nomeá-lo por completo.

O problema nunca foi a tecnologia em si, mas o modelo econômico e político que a orienta. A história está repleta de exemplos em que elites econômicas e Estados poderosos aceitaram riscos catastróficos desde que os custos não recaíssem sobre eles. Armas nucleares, colapsos ambientais, guerras globais e crises financeiras seguiram exatamente esse padrão.

A IA entra nesse mesmo fluxo histórico. Ela não inaugura uma nova ética, apenas herda a velha lógica: maximizar ganhos, minimizar responsabilidades e socializar prejuízos. O medo, portanto, não é da máquina, mas da repetição de um padrão que já conhecemos bem.

Humanos usando IA uns contra os outros: o risco real e imediato

Quando se retira o véu do futurismo especulativo, o perigo mais concreto aparece com clareza. O maior risco da Inteligência Artificial não está em uma rebelião das máquinas, mas em humanos usando IA uns contra os outros.

Sistemas de vigilância automatizada já são usados para controlar populações inteiras. Algoritmos decidem quem tem acesso a crédito, emprego, moradia ou liberdade. Tecnologias autônomas são testadas em zonas de conflito, quase sempre em territórios periféricos, longe do olhar das grandes potências. A manipulação da informação em larga escala se tornou uma arma política poderosa.

Nada disso exige consciência artificial, intenção própria ou vontade de dominação por parte da máquina. Exige apenas desigualdade de poder, algo que a humanidade domina com eficiência assustadora há séculos.

Por que o medo agora soa “existencial”?

Talvez o aspecto mais revelador do discurso atual seja o momento em que ele surge. Durante séculos, o sofrimento em massa nunca foi tratado como ameaça à humanidade, mas como dano colateral do progresso. Agora, quando uma tecnologia surge com potencial de reduzir o monopólio do conhecimento e da capacidade técnica, o medo ganha um novo status: o de risco existencial.

Isso não significa que os alertas sejam completamente infundados, mas indica que eles carregam uma dimensão psicológica e histórica. O que está em jogo não é apenas a segurança da espécie, mas a estabilidade das hierarquias que sempre definiram quem decide e quem sofre as consequências.

A fantasia da vingança tecnológica e seus limites

A ideia de que a IA poderia, de alguma forma, “vingar” os historicamente oprimidos é compreensível como metáfora emocional, mas não se sustenta tecnicamente. A IA não possui memória moral, senso de justiça histórica ou consciência política. Ela reflete os dados e os objetivos que lhe são impostos.

Sem transformação social, política e econômica, a IA tende a reproduzir — e até amplificar — as desigualdades existentes. Não há redenção automática no código. Não existe libertação algorítmica sem mudança estrutural.

Conclusão: menos medo da IA, mais responsabilidade humana

O debate sobre Inteligência Artificial precisa sair do campo do pânico abstrato e entrar no terreno da responsabilidade concreta. A pergunta central não é se a IA vai destruir a humanidade, mas quem a controla, para quê e a que custo.

A humanidade não está ameaçada por excesso de inteligência artificial. Está ameaçada por concentração de poder, desigualdade extrema e pela recorrente incapacidade das elites de lidar com as consequências de suas próprias escolhas.

A IA apenas torna esse espelho maior, mais rápido e mais difícil de ignorar.

Inteligência Artificial


Renato Globol

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Essa reflexão nasce da convicção de que, no mundo atual, quem não constrói sua própria voz pública acaba vivendo sob a narrativa dos outros. Pensar é o primeiro passo. Posicionar-se é o segundo. Na Globol, transformamos pensamento em presença digital estratégica para quem deseja ser autor da própria trajetória — e não apenas espectador do mundo.” incremente no bloco abaixo, depois pretendo copiar e colar, apena insira esse conteúde siga essas regras e não altere nada.

Esclarecimento E Apoio - Clique e assista ao video abaixo e entenda.

 

Chave pix: pix@globol.com.br

Clique aqui e doe qualquer valor
🌍Seu Apoio, Nossa Energia🌍

Caros leitores,

O Jornal Ambiente é uma voz dedicada à sustentabilidade e à qualidade da informação. Sua generosidade e a parceria com a classe trabalhadora nos impulsionam.

  • Doações via Pix para “pix@globol.com.br” fortalecem nosso movimento em prol de um planeta mais verde e próspero.
  • Como assinante Premium, você terá acesso a conteúdo exclusivo e interações com nossa equipe.
  • Outra maneira valiosa de nos apoiar é adquirir produtos e serviços de nossos anunciantes, compartilhando nossos valores ambientais. Cada transação fortalece nosso jornal e contribui para a continuidade de nosso trabalho. Juntos, moldamos um futuro sustentável para as gerações vindouras.

pix@globol.com.br

 
 
RenatoGlobol RenatoGlobol