Última atualização em 29 de janeiro de 2026 Jornalista RenatoGlobol

Temos o direito a desconexão coletiva pelo simples fato de vivermos cansados a todo tempo. E não é um cansaço qualquer. É um cansaço que não passa com uma noite de sono, com férias ou com uma pausa no fim de semana. É um cansaço mais profundo, mais difícil de nomear, porque ele não vem apenas do excesso de tarefas, mas da sensação constante de que estamos vivendo em um sistema que já não faz sentido, mas que continua nos exigindo tudo.
Esse esgotamento não é individual. Não é falha de caráter, falta de disciplina ou incapacidade pessoal de “dar conta”. Ele é produzido socialmente. É resultado direto de uma vida organizada por algoritmos, métricas, disponibilidade permanente e insegurança constante. Uma vida em que tudo pede atenção, tudo é urgente e quase nada é realmente importante.
As redes sociais não são apenas um passatempo. Elas se tornaram um ambiente total. Informam, deformam, capturam tempo, moldam desejos e criam a ilusão de que estamos conectados, quando na verdade estamos cada vez mais isolados. O fluxo é incessante. Crises, opiniões, imagens, anúncios, previsões apocalípticas, promessas de sucesso, discursos prontos. O cérebro não descansa. A sensibilidade se embota. A criação trava.
A gente acaba sabendo um pouco de tudo, mas de forma rasa. Consumimos fragmentos, manchetes, cortes. Pensamos rápido, reagimos mais rápido ainda, mas refletimos cada vez menos. Isso não nos fortalece. Nos esgota. Nos deixa com a sensação de que estamos sempre atrasados, sempre devendo, sempre insuficientes.
Durante muito tempo, o capitalismo conseguiu se justificar prometendo progresso. Prometeu que o esforço seria recompensado, que o crescimento beneficiaria a todos, que bastava trabalhar duro. Essa promessa não se sustenta mais. O trabalho se precarizou, os salários encolheram, a estabilidade desapareceu. A automação e a inteligência artificial avançam rapidamente, não para libertar as pessoas do trabalho exaustivo, mas para tornar o trabalho humano descartável.
Vivemos a contradição central do nosso tempo: o sistema precisa cada vez menos de trabalhadores, mas continua exigindo que todos vivam como se precisassem competir o tempo inteiro por um lugar que já não existe. A chamada uberização da vida transformou a disponibilidade permanente em virtude moral. Estar sempre online virou obrigação. Desconectar virou risco.
Nesse cenário, começa a aparecer com força a ideia de “direito à desconexão”. Mas precisamos ser honestos. Quando esse debate fica restrito ao campo do autocuidado individual, ele vira privilégio. Quem pode se desconectar de verdade? Quem pode sair das redes, diminuir a exposição, desacelerar? Em geral, quem já tem alguma segurança material. Para o resto, a desconexão parece um luxo inalcançável.
É por isso que defendo algo mais profundo: o direito à desconexão coletiva. Não como fuga, mas como reação. Não como isolamento, mas como reorganização da vida em comum. Porque ninguém atravessa este tempo histórico sozinho sem adoecer.
Estamos vivendo um período de transição. O velho mundo já não funciona, mas o novo ainda não apareceu com clareza. As promessas antigas perderam credibilidade. As novas ainda são vagas ou assustadoras. Tudo parece provisório. Empregos, identidades, relações, projetos. Essa sensação de liquidez permanente corrói o chão sob nossos pés.
Diante disso, insistir na ideia de que cada um deve “se virar sozinho” é cruel e irreal. O individualismo, que já foi vendido como liberdade, hoje funciona como forma de abandono. Isolados, ficamos mais fracos, mais ansiosos, mais manipuláveis.
É aqui que entra algo fundamental: procurar sua turma, seu grupo, seu coletivo. Não como modismo militante, não como identidade de rede social, mas como necessidade concreta de sustentação emocional, material e simbólica. Grupos não são apenas espaços de discurso. São espaços de cuidado, de troca, de reconhecimento e de construção de sentido.
Movimentos populares, coletivos de base, grupos culturais, redes comunitárias sempre entenderam isso. A ideia de que ninguém solta a mão de ninguém não é poesia. É método de sobrevivência. É tecnologia social. É o reconhecimento de que, sem laço, o sistema nos mói com facilidade.
Buscar um coletivo não significa terceirizar a própria vida nem entregar o pensamento crítico. Significa compreender que só existe transformação real quando há construção compartilhada. E essa aproximação precisa ser madura. Não se trata apenas de pedir acolhimento, mas de oferecer capacidades, tempo, saberes, escuta. Todo grupo saudável se sustenta na troca, não na exploração emocional.
Reagir a esse estado de coisas é necessário. Não dá mais para naturalizar o cansaço como se fosse parte da vida moderna. Não dá mais para aceitar que a única resposta seja terapia individual enquanto o mundo continua adoecendo as pessoas em série. É preciso organização, vínculo e ação coletiva, mesmo que em pequena escala.
O direito à desconexão coletiva não é desligar tudo e desaparecer. É recuperar o controle sobre o ritmo da vida. É decidir juntos quando estar, como estar e para quê. É construir espaços onde o valor humano não seja medido por produtividade, engajamento ou performance.
Talvez não saibamos ainda como será o mundo que virá depois desse colapso. Mas sabemos algo essencial: ele não nascerá do isolamento. Ele só pode surgir da cooperação, da solidariedade e da coragem de se juntar.
Procurar sua turma hoje não é fraqueza. É lucidez. É reação. É, talvez, a forma mais concreta de resistência que temos ao alcance.

