Última atualização em 28 de outubro de 2026 Jornalista RenatoGlobol

Tem político que acredita que ganhar uma eleição é uma questão de contratar uma agência famosa, encomendar umas fotografias bem produzidas, gravar um discurso com música emocionante e aparecer na televisão com aquela expressão de quem acabou de salvar a humanidade. O eleitor, coitado, deveria assistir a tudo, bater palmas e votar conforme a orientação dos iluminados. Só esqueceram de combinar com o povo.
Foi nesse cenário que a mobilização digital de André Janones chamou atenção durante a campanha presidencial de 2026. Enquanto a política tradicional continuava disputando espaço nos palanques e nos programas eleitorais, o deputado apostou numa ferramenta que milhões de brasileiros carregam no bolso: o celular. E não precisava comprar um aparelho importado, contratar um consultor estrangeiro nem frequentar um seminário de marketing em Miami para entender a ideia. Bastava saber conversar com gente de verdade.
📧 QUER IR ALÉM?
Este texto faz parte de uma reflexão maior. No meu ebook "Do Coach ao Caos", mostro como a lógica da meritocracia e dos bilionários se conecta com a desindustrialização do Brasil.
Pague quanto puder via Pix ou baixe de graça. O importante é a informação circular.
O Exército do Lula, organizado em torno de um canal no WhatsApp, transformou apoiadores em participantes de uma mobilização coletiva. O nome era militar, as tarefas eram chamadas de missões e a linguagem procurava criar um sentimento de pertencimento. A iniciativa ganhou grande repercussão, com o canal ultrapassando a marca de 10 milhões de seguidores, segundo notícias divulgadas durante a campanha.
A questão, portanto, vai muito além de um político que sabe fazer vídeos para a internet. O que merece nossa atenção é a capacidade de organizar pessoas, estimular sua participação e disputar o espaço público num tempo em que a atenção virou mercadoria. E, como veremos, os donos da política tradicional talvez tenham alguma coisa a aprender com isso.

André Janones e o Exército do Lula: quando o celular virou ferramenta política
André Janones não surgiu do nada. Sua trajetória política foi marcada pelo uso intenso das redes sociais e por uma comunicação direta, popular e frequentemente provocadora. Seu jeito de falar não segue necessariamente o figurino do político que parece ter engolido um manual de cerimonial antes de abrir a boca.
Há uma diferença importante entre falar para as pessoas e falar com elas. No primeiro caso, o político faz seu discurso, a equipe publica o vídeo e todos ficam esperando que o mundo se comova. No segundo, existe uma tentativa de criar uma relação com o público, mobilizar respostas e estimular a participação.
O Exército do Lula apostou nessa segunda possibilidade. Em vez de depender apenas das publicações de uma equipe profissional, a iniciativa convidava apoiadores a participar da circulação de mensagens e conteúdos favoráveis ao candidato petista.
🌿 O Link de Apoio
Você faz suas compras normais na Amazon, paga exatamente o mesmo preço, e uma parte do lucro vai para financiar minha produção independente.
🛒 Faça suas compras na Amazon por aquiQualquer item adicionado ao carrinho após clicar aqui apoia o meu trabalho.
Convenhamos: há uma certa ironia nisso. Durante décadas, parte da elite política tratou a população como plateia. O povo era chamado para votar, aplaudir e, de preferência, não atrapalhar os acordos feitos nos gabinetes. De repente, aparece uma estratégia que procura transformar o eleitor em agente da comunicação. Alguns devem ter ficado espantados. Afinal, quem poderia imaginar que o cidadão também tivesse dedos para apertar a tela do celular?
WhatsApp nas eleições: a força de uma mensagem que chega perto
O WhatsApp tem uma vantagem evidente: faz parte da rotina de muita gente. Está no aparelho do trabalhador, do comerciante, da aposentada, do estudante e daquele parente que manda uma corrente dizendo que determinada notícia vai mudar sua vida antes mesmo do café da manhã.
A ferramenta permite distribuir mensagens, vídeos, orientações e informações diretamente aos participantes de um grupo ou canal. Isso oferece às campanhas uma possibilidade de contato que não depende exclusivamente da televisão, dos jornais ou dos algoritmos das redes abertas.
A estratégia do Exército do Lula também procurou organizar a participação. As tarefas davam aos apoiadores uma atividade concreta, em vez de deixá-los apenas consumindo conteúdo. Compartilhar uma publicação, participar de uma conversa ou ajudar a divulgar uma mensagem são ações simples, mas podem produzir uma sensação de envolvimento.
É aqui que a comunicação política mostra sua dimensão humana. As pessoas não querem apenas receber informações. Muitas também desejam sentir que pertencem a alguma coisa, que sua participação tem valor e que não estão assistindo passivamente aos acontecimentos.
Naturalmente, milhões de seguidores não significam milhões de votos conquistados. Uma pessoa pode acompanhar um canal por curiosidade, discordar de parte das mensagens ou simplesmente ignorar as tarefas propostas. Alcance, participação e convencimento são coisas diferentes, embora o pessoal do marketing goste de colocar tudo na mesma planilha e apresentar o resultado numa reunião com café importado.
A política descobriu o poder do pertencimento
Existe uma razão para movimentos sociais, associações comunitárias e organizações políticas investirem tanto na criação de identidades coletivas. Quando alguém sente que faz parte de um grupo, pode encontrar motivação para participar de atividades que, isoladamente, talvez não realizasse.
O Exército do Lula utilizou uma linguagem que reforçava essa identidade. Havia uma missão, um objetivo e uma comunidade de apoiadores. A metáfora militar dava à participação um caráter de ação organizada.
Isso não significa que toda pessoa mobilizada tenha se tornado uma espécie de soldado obediente. O comportamento humano é mais complicado do que certos estrategistas imaginam. Ninguém instala um aplicativo e, por milagre, entrega o cérebro junto com os termos de uso.
Mas existe uma lição importante: informar não é necessariamente mobilizar. Uma notícia pode ser excelente e passar despercebida. Uma mensagem pode ser simples, despertar interesse e provocar uma conversa. A diferença está na maneira como o conteúdo encontra as preocupações, os valores e as experiências das pessoas.
O desafio democrático é fazer isso sem transformar pertencimento em submissão. Um movimento político saudável precisa admitir perguntas, críticas e divergências. Se alguém só pode participar depois de concordar com tudo, não temos uma comunidade de cidadãos: temos uma fila de pessoas esperando autorização para pensar.
Algoritmos e redes sociais: ninguém tem a fórmula mágica
Outra dimensão dessa disputa é o funcionamento das plataformas digitais. Publicações que recebem interações podem ganhar visibilidade, dependendo dos critérios de recomendação de cada serviço. Compartilhamentos, comentários e outras formas de participação podem ajudar um conteúdo a circular.
Entretanto, não existe uma receita infalível para viralizar. Os algoritmos mudam, os públicos reagem de maneiras diferentes e uma publicação pode fracassar mesmo depois de receber todo o carinho de uma equipe de comunicação.
Por isso, é importante distinguir conhecimento digital de superstição tecnológica. Entender as plataformas ajuda a comunicar melhor, mas não transforma ninguém em proprietário dos algoritmos.
Também existe um risco sério: a velocidade de circulação de uma mensagem não garante sua veracidade. Uma mentira pode viajar de celular em celular com uma eficiência impressionante. A verdade, por sua vez, às vezes precisa enfrentar documentos, explicações e uma fila de gente que prefere acreditar no que confirma suas convicções.
O uso responsável das redes exige verificar informações, consultar fontes confiáveis e evitar compartilhar acusações sem provas. Isso vale para a esquerda, para a direita e para qualquer pessoa que não queira transformar o próprio celular numa filial do departamento de boatos.
A mobilização digital pode fortalecer a democracia, desde que não seja usada como desculpa para abandonar o compromisso com os fatos.
Lula venceu em 2026: mas quem decidiu a eleição?
O segundo turno presidencial de 2026 terminou com a reeleição de Lula, que recebeu 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, segundo os números atribuídos ao Tribunal Superior Eleitoral. Foi uma disputa apertada, daquelas em que cada voto ganha importância e os nervos ficam mais esticados que orçamento doméstico no fim do mês.
Depois da apuração, naturalmente, surgiram explicações para todos os gostos. Sempre aparece alguém que afirma ter previsto tudo, outro que garante conhecer o segredo da vitória e um terceiro que atribui o resultado à sua própria genialidade. A política brasileira tem dessas coisas: antes da votação, há especialistas em pesquisa; depois, multiplicam-se os especialistas em explicar por que a pesquisa não explicou tudo.
A mobilização de André Janones merece ser considerada entre os acontecimentos relevantes da campanha. O Exército do Lula demonstrou capacidade de organização e ampliou a presença de conteúdos políticos nas redes. Mas seria precipitado afirmar que Janones, sozinho, decidiu o resultado.
O eleitor não é um boneco de controle remoto que muda de opinião porque recebeu um vídeo no WhatsApp. Pesam a avaliação do governo, o preço dos alimentos, as condições de trabalho, as expectativas para o futuro, a identificação política, a confiança nos candidatos e as conversas que acontecem dentro de casa, no serviço e na rua.
Para medir a contribuição específica do Exército do Lula, seriam necessárias pesquisas capazes de investigar como os eleitores foram expostos à campanha e em que medida isso influenciou suas decisões. O crescimento do canal e a vitória de Lula ocorreram no mesmo contexto, mas essa coincidência não comprova, por si só, uma relação direta de causa e efeito.
Reconhecer a importância da estratégia não exige entregar a Janones uma coroa de louros e declarar feriado nacional em homenagem ao WhatsApp. A eleição foi disputada por milhões de brasileiros, cada qual com suas razões, seus interesses e suas expectativas.
O que jornalistas, comunicadores e movimentos sociais podem aprender?

A experiência oferece lições que ultrapassam as campanhas eleitorais. Quem trabalha com jornalismo, comunicação comunitária, projetos culturais ou pequenos negócios também disputa a atenção de pessoas que já recebem mensagens demais.
A primeira lição é falar de maneira compreensível. Não é necessário transformar uma explicação simples numa palestra de doutorado para demonstrar competência. Se a pessoa precisa consultar três dicionários para entender a mensagem, talvez o problema não esteja nela.
A segunda é oferecer participação real. Em vez de apenas pedir curtidas, vale convidar o público a contribuir com informações, discutir problemas, apresentar propostas e colaborar com iniciativas concretas.
A terceira é criar regularidade sem transformar a comunicação numa fábrica de urgências. Nem tudo é extraordinário, histórico ou imperdível. Se cada mensagem anuncia o fim do mundo, logo o público aprende a ignorar até quando o mundo realmente ameaça acabar.
A quarta é construir confiança. Informações verificadas, correções transparentes e respeito aos leitores valem mais do que uma viralização obtida à custa de uma mentira.
Por fim, é preciso compreender que seguidores não são mercadoria. São pessoas. Quem reúne uma comunidade tem a responsabilidade de respeitar sua inteligência, seu tempo e sua liberdade de escolha.
O verdadeiro poder da comunicação está nas pessoas
O Exército do Lula ajuda a mostrar que a política digital não se resume à compra de anúncios ou à produção de vídeos bem editados. Organizar pessoas, construir uma identidade coletiva e oferecer formas de participação são componentes importantes de uma estratégia de comunicação.
Mas tecnologia não substitui confiança, assim como um megafone não transforma discurso ruim em boa ideia. A ferramenta amplia a mensagem; o que se faz com ela continua sendo responsabilidade de quem a utiliza.
Talvez a maior ironia dessa história seja perceber que, enquanto alguns poderosos gastam fortunas tentando convencer o povo de que são indispensáveis, iniciativas digitais mostram que pessoas comuns também podem participar ativamente da disputa pública. Não precisam ser gênios, especialistas em marketing ou frequentadores de gabinetes acarpetados. Precisam compreender o que defendem, comunicar-se com clareza e respeitar a inteligência de quem está do outro lado da tela.
E fica a pergunta: se milhões de pessoas podem ser mobilizadas em torno de uma campanha eleitoral, por que não poderiam se organizar para melhorar um bairro, defender uma escola pública, fiscalizar os gastos municipais ou enfrentar um problema ambiental?
O desafio não é construir um exército para obedecer cegamente a um líder. É criar uma comunidade capaz de pensar, agir e cobrar resultados. Porque, no fim das contas, a democracia não deveria funcionar como quartel, onde alguns mandam e os demais cumprem ordens. Deveria funcionar como espaço público, onde cidadãos participam, discordam e decidem os rumos da sociedade.
E isso, convenhamos, é uma ideia muito mais revolucionária do que qualquer missão enviada por celular.
🕊️ A REDE DE PROTEÇÃO COMEÇA AQUI
Este texto levou alguns dias de pesquisa e apuração. Se ele te ajudou a enxergar o caos com mais clareza — ou te deu um pouco de esperança — considere:
R$5
o café que mantém a caneta funcionando
R$20
ajuda a pagar uma fonte internacional
R$50
financia o próximo texto investigativo
💚 CHAVE PIX:
pix@globol.com.br
📱 ANÁLISES RÁPIDAS NO WHATSAPP
Cadastre-se para receber, no seu celular, análises rápidas sobre como as notícias do dia afetam sua vida real — sem jargonagem acadêmica, só o que importa.
Sem spam. Só quando for relevante.
Se não puder apoiar agora, compartilhe este texto com alguém que precisa ler. Toda faísca ajuda a manter o fogo aceso.
