Última atualização em 9 de dezembro de 2024 Jornalista RenatoGlobol
O Que Resta de Nós Quando o Dinheiro Vira Fim e Não Meio

Há algumas semanas, conversando com uma senhora na fila da lotérica — daquelas filas que já fazem parte da paisagem urbana brasileira —, ela me disse algo que não saiu mais da cabeça. Era dia de pagar boletos, ela segurava um punhado de papéis com marcas de dobra e suor, e comentou, quase como quem pensa alto: “Antes a gente trabalhava e sabia quanto ia ganhar. Hoje a gente trabalha, e o dinheiro some antes de chegar em casa. Some no caminho.”
Na hora, pensei na literalidade: taxas, juros, parcelas. Depois, entendi que ela dizia mais. Dizia que o dinheiro tem desaparecido mesmo. Não fisicamente, mas em poder. Em capacidade de comprar dignidade. E o que mais me incomoda é saber que esse sumiço tem endereço, nome e sobrenome. Não é mistério cósmico. É projeto.
A financeirização da economia parece conversa de economista, dessas que ocupam páginas de jornal que a gente folheia sem ler. Mas não é. É sobre a fila da lotérica. É sobre o jovem que conclui a faculdade e descobre que o diploma vale menos que o boleto da mensalidade. É sobre o trabalhador que aceita dois empregos e ainda assim não sabe se vai pagar o aluguel.
Quando o sistema financeiro deixa de ser ferramenta para virar dono da roda, algo se quebra. E o que se quebra é a possibilidade de uma vida comum, dessas que nossos avós consideravam básicas: casa própria, aposentadoria tranquila, filhos na escola pública com ensino decente. Hoje, isso virou privilégio. E privilégio, num país como o nosso, é senha para um clube que só aceita herdeiros de herdeiros.
O Invisível Que Apertou Nosso Pescoço
Vamos tentar enxergar o invisível. A financeirização não é um monstro de sete cabeças que aparece no noticiário. Ela é um processo silencioso, que começa quando as decisões econômicas deixam de priorizar a produção de coisas reais — alimentos, roupas, remédios, moradias — e passam a priorizar a circulação de papéis que representam dinheiro.
Parece abstrato? Vou tornar concreto.
Nos anos 80, o mundo começou a virar uma mesa de pôquer. Os governos, um a um, foram derrubando regras que protegiam as economias nacionais. Bancos passaram a poder fazer o que quisessem. Empresas deixaram de fabricar produtos para fabricar dívidas. E o lucro, que antes era consequência de produzir bem, passou a vir de apostar certo.
Quem lembra da crise de 2008 talvez se recorde de imagens de pessoas com caixas de papelão saindo de casa nos Estados Unidos. Pois bem: aquilo foi financeirização em estado puro. Bancos empacotaram hipotecas podres, venderam como se fossem ouro, ganharam dinheiro com isso, e quando a casa caiu — literalmente — quem pagou a conta foram os trabalhadores. Os bancos? Foram salvos com dinheiro público. Porque “grandes demais para quebrar”, disseram.
No Brasil, a versão da história tem cor e sabor locais. Aqui, a financeirização chegou pelos juros. Pela taxa básica que mantém o país refém de uma lógica perversa: quanto mais o Banco Central sobe os juros para controlar a inflação, mais dinheiro vai para quem já tem dinheiro aplicado. Quem vive de salário, de bico, de pequeno negócio? Esse paga a conta duas vezes. Primeiro, porque o crédito fica mais caro. Segundo, porque o governo corta gastos sociais para pagar os juros da dívida.
Você sente isso no preço do arroz. Eu sinto nas cartas que recebo de leitores desesperados com a fatura do cartão. Nós todos sentimos, mas raramente nomeamos.
Os Rentistas: Essa Classe Que Não Precisa Trabalhar
Existe uma palavra meio antiga, meio esquecida, que os economistas usam: rentistas. São pessoas que vivem de renda. Não de salário. Não de suor. De aplicações financeiras, aluguéis, dividendos. Gente que acorda e o dinheiro já está lá, crescendo sozinho, como planta em estufa.
Com a financeirização, os rentistas ganharam o poder que não tinham desde o século XIX. Deixaram de ser coadjuvantes para virar protagonistas. As políticas econômicas hoje são desenhadas, em boa medida, para agradá-los. Para garantir que seus títulos públicos não percam valor. Para que a inflação não corroa seus ganhos. Para que o Estado nunca, jamais, deixe de pagar os juros combinados.
E quem paga esses juros? Nós.
O dinheiro que falta na escola, no posto de saúde, na manutenção de uma estrada vicinal, esse dinheiro foi transferido para os rentistas. Não é teoria da conspiração. É dado. É orçamento público. É a fatia do bolo que cresce para um lado enquanto murcha para o outro.
Conheci, anos atrás, um senhor aposentado que guardava dinheiro debaixo do colchão. Não por desconfiança dos bancos, mas porque, segundo ele, “dinheiro parado não some”. Hoje, entendo melhor o que ele queria dizer. No sistema financeirizado, o dinheiro não some, mas se deforma. Vira dívida, vira especulação, vira instrumento de poder. E quem não tem muito, perde o pouco que tem justamente porque esse sistema exige que tudo esteja girando, girando, girando — e quem não consegue acompanhar o giro, cai.
O Trabalho Que Deixou de Ser Refúgio
Outra face dessa transformação é o que aconteceu com o trabalho. Minha avó dizia que “trabalho dignifica o homem”. Na cabeça dela, e na de toda uma geração, ter um emprego era garantia de um lugar no mundo. Você vendia sua força, recebia seu salário, e com ele construía sua vida.
Hoje, o trabalho virou plataforma de risco. O avanço da financeirização sobre as empresas fez com que elas deixassem de pensar no longo prazo. Não importa mais construir uma fábrica sólida, uma marca respeitada, uma equipe leal. Importa o resultado do próximo trimestre. O lucro que vai ser anunciado para os acionistas. O preço da ação na bolsa.
E como se consegue isso? Cortando custos. Demitindo. Terceirizando. Pegando funcionários e transformando-os em “parceiros” — palavra que, no vocabulário contemporâneo, significa “gente que paga os próprios custos e ainda assim trabalha para a empresa”.
Conheço um entregador que se matricula em aplicativo como se matricula na vida. Ele compra a moto, paga a gasolina, arca com a manutenção, e no fim do mês recebe o que sobra depois que a plataforma leva a parte dela. Não tem décimo terceiro, não tem férias, não tem proteção. Se cair da moto, cai sozinho.
Isso é financeirização. É o capital que diz: “Não quero mais arcar com os custos de ter gente trabalhando para mim. Quero apenas os resultados. Os riscos, que cada um carregue os seus.”
O Banco Central e o Elefante na Sala
Quando se fala em Banco Central, a maioria das pessoas imagina algo distante, quase técnico, uma instituição que mexe em botões invisíveis para manter a economia nos trilhos. Mas o Banco Central é profundamente político. As decisões que toma afetam diretamente quem vive de salário.
Tomemos a taxa básica de juros, a Selic. Quando ela sobe, o governo anuncia que está combatendo a inflação. E é verdade: juros altos seguram o consumo, esfriam a economia. Mas quem ganha com isso? Os bancos. Quem perde? Quem precisa de crédito para comprar uma geladeira, financiar uma casa, abrir um pequeno negócio.
Há quem diga que o Banco Central age como se fosse o sindicato dos rentistas. Defendendo os interesses de quem vive de aplicações, em detrimento de quem vive do próprio trabalho. E quando olhamos para a composição da diretoria da instituição, para as reuniões com representantes do mercado financeiro, para o peso que o sistema financeiro tem nas decisões, fica difícil negar.
Na crise de 2020, enquanto a pandemia matava centenas de milhares de brasileiros, o mercado financeiro batia recordes. Porque dinheiro, quando é muito, encontra sempre um jeito de se multiplicar. Mesmo com o país em frangalhos. Mesmo com pessoas passando fome. O lucro não tem nacionalidade, não tem solidariedade, não tem constrangimento.
O Neoliberalismo Como Religião e Seus Profetas
Tudo isso que descrevo até agora tem um nome maior, um guarda-chuva ideológico: neoliberalismo. A crença de que o mercado deve organizar a vida, de que o Estado deve ser mínimo, de que a regulação atrapalha, de que cada um é responsável pelo seu sucesso ou fracasso.
Essa ideia virou senso comum a partir dos anos 90. Foi vendida como modernidade, como caminho único, como fim da história. Quem resistia era tratado como atrasado, como saudosista, como inimigo do progresso.
O resultado está aí: concentração de renda como não se via há um século. Milionários e bilionários multiplicando suas fortunas enquanto a maioria estagna ou regride. Gente jovem que não consegue sair da casa dos pais. Gente velha que não consegue se aposentar. Gente no meio do caminho que vive de bico em bico, sem rede, sem chão, sem perspectiva.
Não é falta de esforço. É falta de estrutura. O jogo está viciado. E está viciado justamente porque a lógica financeira transformou tudo em mercadoria. Educação? Mercadoria. Saúde? Mercadoria. Moradia? Mercadoria. Até relações humanas viram produto, em aplicativos que nos conectam por assinatura.
O Que Podemos Fazer Além de Reclamar
Não escrevo este texto para desesperançar. Escrevo porque acredito que nomear o problema é o primeiro passo para enfrentá-lo. E enfrentar a financeirização e a desigualdade que ela produz não é tarefa para um, é tarefa para muitos.
Há caminhos. Eles passam por organização popular, por pressão sobre governantes, por construção de alternativas econômicas que coloquem a vida no centro, não o lucro.
As cooperativas de crédito, por exemplo, são uma resposta concreta. O movimento por taxas de juros justas, a luta por um sistema tributário que tribute grandes fortunas, a defesa de bancos públicos com missão social — tudo isso são frentes de batalha.
Precisamos também de educação. Não a educação bancária, que ensina a criança a poupar para o futuro, mas a educação crítica, que ensina a perguntar: de onde vem a riqueza? Para onde vai o trabalho? Quem ganha com essa regra do jogo?
As escolas raramente ensinam isso. As universidades, quando ensinam, fazem de forma técnica, como se economia fosse ciência exata, não campo de disputa. Mas é disputa. Sempre foi.
O Futuro Não Está Escrito, Mas Está Sendo Escrito Agora
Quando aquela senhora na fila da lotérica disse que o dinheiro some no caminho, ela resumiu em poucas palavras o que eu tentei desenhar aqui. A financeirização da economia não é um conceito acadêmico. É a explicação para o sumiço. Para o dinheiro que chega menor. Para a vida que custa mais. Para o futuro que parece prometido só para alguns.
Mas o futuro não está escrito. Está sendo escrito agora, por decisões que tomamos coletivamente. Pelo voto que damos. Pelo consumo que escolhemos. Pela solidariedade que praticamos. Pela indignação que transformamos em ação.
Podemos continuar aceitando que o sistema financeiro dite as regras. Podemos continuar vendo os rentistas enriquecerem às custas do trabalho alheio. Podemos continuar assistindo, passivamente, à transformação de direitos em privilégios.
Ou podemos perguntar: que mundo queremos deixar para quem vem depois? Um mundo onde a vida é aposta e a maioria perde? Ou um mundo onde o trabalho dignifica porque o salário dignifica, onde o dinheiro é meio e não fim, onde a economia serve às pessoas e não o contrário?
A resposta, como sempre, está nas mãos de quem se recusa a aceitar que o jeito é esse. E eu aposto que ainda somos muitos.

Por: Renato Mendes de Andrade – Jornalista – MTB 72.493/SP

